
Legenda: Governador realizou uma série de reuniões com vereadores da base de Evandro nas últimas semanas.
Foto: Thiago Gadelha.
Há um volume crescente nas redes sociais de fotos de vereadores de Fortaleza em encontros com o governador Elmano de Freitas (PT), pré-candidato à reeleição. Ao lado do prefeito Evandro Leitão (PT), ainda em começo de mandato, os petistas apostam na capilaridade eleitoral das lideranças locais em um dos maiores eleitorados do Estado. Não é uma estratégia dissociada do que cobram os resultados recentes do partido.
É um desafio da chapa governista superar o histórico de desidratação no desempenho do PT em Fortaleza, nos últimos pleitos. Elmano ficou em 2º lugar na Capital em 2022; viu o partido vencer uma disputa com aperto pela Prefeitura em 2024 e sabe que as vagas na disputa pelo Legislativo têm sido um território de candidaturas de centro e de direita. Além disso, para 2026, o partido perdeu uma das principais puxadoras de voto na Capital, a ex-prefeita e deputada federal, Luizianne Lins, recém filiada à Rede Sustentabilidade.
Aliados do Governo e analistas políticos apontam o que está em jogo nessa estratégia, em entrevista ao PontoPoder.
Aproximação articulada entre Legislativo e Executivo
Em declarações públicas das lideranças ligadas ao prefeito Evandro Leitão na Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor), a série de conversas entre o governador e os parlamentares é descrita como um momento de escuta e apresentação de resultados da gestão estadual, o que inclui as entregas do Governo do Ceará na cidade. O presidente da Casa Legislativa, o vereador Leo Couto (PSB), foi um dos articuladores das reuniões, segundo políticos ouvidos pelo PontoPoder.
De acordo com o vereador Bruno Mesquita (PSD), líder do governo municipal na CMFor, os convites estão sendo feitos “para ter uma conversa de saber o que está acontecendo em cada pauta, de cada vereador, em cada região de Fortaleza”. “É mais para escutar os vereadores, para que alguns conheçam melhor o governador e possam falar sobre demandas dos bairros”, adicionou.
Mas a aproximação do petista com os representantes da situação é considerada nos bastidores como uma mobilização para converter os apoios de vereadores em votos para o Partido dos Trabalhadores, especialmente pelo cenário apertado de eleição de Evandro Leitão em 2024, por uma vantagem de pouco mais de 10 mil votos em relação ao seu oponente no segundo turno, o deputado federal André Fernandes (PL).
Para Elmano, o páreo também não se mostra fácil. A primeira rodada da pesquisa Quaest sobre a disputa pelo Governo do Ceará mostra Ciro Gomes (PSDB) com 41% das intenções de voto. Em seguida, aparece o atual governador, que soma 32%. Na sequência, Eduardo Girão (Novo) tem 4% e Jarir Pereira (Psol) registra 1%. Zé Batista (PSTU) não pontuou. Os dados são da pesquisa estimulada para o primeiro turno.
Neste contexto apertado, um colégio eleitoral como o de Fortaleza, onde aproximadamente 1,8 milhão de eleitores estão aptos a votar, tem uma importância relevante no somatório necessário para dirigir o estado.
Fortalecimento necessário
O fortalecimento da aliança na Capital é considerado relevante também pelo histórico do PT nas últimas disputas. Dados acerca dos pleitos realizados desde 2012, obtidos junto à Justiça Eleitoral, mostram que o PT costuma liderar ou ser competitivo em Fortaleza para a Presidência da República e para o Governo do Estado, mas amarga resultados inexpressivos na Câmara Municipal, raramente emplacando vereadores entre os mais votados, perdendo espaço para o PL, PDT e Psol.
A vitória de Evandro no último pleito municipal também foi o fim de um jejum, já que o PT acumulava derrotas ao competir pelo Palácio do Bispo nas três ocasiões anteriores. Em 2012, Elmano perdeu para Roberto Cláudio (atualmente no União) no segundo turno. Em 2016, quando a então petista Luizianne Lins (hoje na Rede) tentou voltar à cadeira de prefeita, sequer foi ao segundo turno e amargou o terceiro lugar. E, em 2020, ela tentou novamente e repetiu o feito.
Para o Palácio do Planalto e também para o Senado Federal, não houve derrotas de filiados ao partido em Fortaleza durante o período. Já para Governo do Estado, Camilo Santana, apesar de ter sido eleito, ficou em segundo lugar na eleição de 2014 no colégio eleitoral fortalezense, perdendo para Eunício Oliveira (MDB). Elmano de Freitas, em 2022, embora vitorioso no 1° turno, ficou em segundo lugar em Fortaleza, perdendo para Capitão Wagner (União).
Ainda quando se observa as eleições gerais, no caso das proporcionais, não se percebe uma hegemonia petista. A ex-filiada Luizianne Lins sempre foi quem figurou entre os dez mais votados em Fortaleza para a Câmara dos Deputados — com quantitativos entre 130 mil e 180 mil votos.
Enquanto isso, Elmano de Freitas (na sétima colocação em 2014 e nona em 2018), Larissa Gaspar (na sexta posição em 2022) e Guilherme Sampaio (oitavo lugar em 2022) foram os únicos que conseguiram boas posições em Fortaleza na disputa por cadeiras na Assembleia Legislativa.
Impacto da saída de Luizianne
Hoje, por estar fora da agremiação e em um partido que não integra a federação composta pelo PT, a ausência de Luizianne Lins como puxadora de votos fortalezenses representa um desafio na contagem de votos proporcionais para os antigos correligionários.
A ex-prefeita foi, em 2022, a parlamentar mais votada em Fortaleza, entre homens e mulheres, com 119 mil votos. Célio Studart (PSD), com 107.542 votos; e André Fernandes (PL), com 105.974, ficaram em segundo e terceiro lugar, respectivamente.
Pela expressividade das votações conquistadas, houve em 2024 outra mobilização: para que ela participasse da campanha do então colega de partido no segundo turno das eleições. A primeira aparição dela ocorreu após 57 dias do início da corrida pela Prefeitura de Fortaleza.
O que dizem os membros do PT Fortaleza?
Esses aspectos são reconhecidos por políticos no exercício de seus mandatos filiados ao PT Fortaleza consultados pela reportagem.
A vereadora Mari Lacerda apontou que há um desafio posto para a sigla, “que é ser governo” e, com isso, “ser vitrine”. Na leitura da parlamentar, essa condição “afeta necessariamente a votação dos vereadores”. Outro aspecto levantado por ela foi o que chamou de “voto antissistêmico”, uma tendência recente vista nos últimos pleitos.
“Torço para que a chapa ao Palácio da Abolição possa caminhar muito próxima da candidatura de Luizianne ao Senado”, falou, justificando que a candidatura da ex-prefeita “potencializa o PT” na eleição pelo Executivo.
Acerca da estratégia para compensar a desfiliação da ex-prefeita no somatório de votos de Fortaleza para a chapa proporcional, Mari revelou que “isso está sendo montado das regiões do interior para cá” e o diretório ainda não havia definido a situação na Capital.
O vereador Aglaylson, por sua vez, atribuiu o insucesso do PT em alcançar os primeiros lugares nas eleições proporcionais em Fortaleza ao cenário de “polarização” visto, segundo ele, “em grandes centros urbanos”. “Mas o PT, se você pegar o histórico do partido e as últimas duas eleições para vereador, ele cresceu”, disse, mencionando o tamanho da bancada.
Perguntado sobre a estratégia do governador em convidar os parlamentares da CMFor, Aglaylson frisou que “fazem parte do mesmo projeto”. “Há um alinhamento entre os governos federal, estadual e municipal. É natural que os vereadores que compõem a base do governo do PT sejam procurados para conversar”, acrescentou, reforçando que as reuniões não tiveram teor eleitoral.
Fonte: DN
Primeira Coluna