No verão, era a caatinga que pintava o quadro amarronzado, e verde, as carnaúbas uma e outra, feito pequenos pontos lá longe a parecerem alto oásis, alentando a esperança dos que no trem fitavam a aridez temporária no sertão.
Dentro, em contínuo sacolejar, os passageiros faziam uma viagem que durava um dia.
Vindo de Crateús, o trem chegava à Ipueiras entre quatro às cinco da manhã.
No bairro da Estação, vendedoras de café, bolos, batatas, doces, pamonhas, tapiocas não faltando para esquentar a velha cachaça.
No trem se ouvia músicas de rádios portáteis ou gravadores.
Dormia-se, almoçava-se e enfim muito se conversava.
Toda viagem era uma rápida expedição a cada cidade, que por já possuir linha férrea era ponto de parada e vista.
Depois de riscar feito uma centopéia mecânica num constante andar barulhento, tanta terra e cidades, entrava em Fortaleza, no amarelado sol das cinco.
Começávamos do trem a divisar longe os arranha-céus. Primeiro o enorme exército de carnaúbas de ambos os lados e finalmente, já com o anoitecer, chegava-se a Estação Ferroviária.
Pedaços de lembranças, narrativas ricas de uma época que não volta mais.
Assim foi o tempo do trem em Ipueiras, tempo este que deixou saudades.
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.
Bérgson Frota, escritor, contista e cronista, é formado em Direito (UNIFOR), Filosofia-Licenciatura (UECE) e Especialista em Metodologia do Ensino Médio e Fundamental (UVA), tem colaborado com os jornais O Povo e Diário do Nordeste, desenvolvendo um trabalho por ele descrito de resgate da memória cultural e produzindo artigos de relevância atual.
