Lá em casa, doutor, nossos netos ouvem essas conversas de antigamente, e mula-sem-cabeça-que-bota-fogo-pela-venta ou saci pererê também são personagens citados, até para desviar das conversas de ben-10, jaspions da vida e outras tralhas que enchem as cabeças da garotada, ensinando sempre a violência e o desprezo pelos valores éticos.
Tá bom, doutor, o que isso tem a ver? Pois é, é que neste domingo estavamos eu e dona Fátima, passeando com os dois netos mais velhos, e na avenida dos Migrantes (aquela que muitos, inclusive algumas autoridades, ainda dizem ser a avenida Costa e Silva, pois é, doutor, e do carro vimos um pé-de-vento enorme, poeiral brabo levantando, com lixo e tudo, na área do Flor do Maracuja.
Aí, doutor, decidimos passar vagarosamente pela área, só para mostrar o redemoinho, ou pé-de-vento, e falar do texto de Monteiro Lobato, se não me engano no livro “O Sítio do Pica-pau Amarelo” – ou foi em “Caçadas de Pedrinho”? – onde o autor ensinava, através de um personagem preto velho, “Tio” Barnabé, que quem provoca o redemoinho é ninguém menos do que o saci-pererê, com seu barrete vermelho, moleque atrevido, uma perna só, cachimbo sempre na boca.
E “Tio” Barnabé ensina ao Pedrinho que o saci está ali fazendo a bagunça e que para prendê-lo só tem um jeito: pegar uma peneira e pular bem no centro do pé-de-vento aprisionando o saci-pererê.
Falamos isso aos netos. Espero que eles tenham aprendido, mas vamos continuar revendo a lição.
Como, doutor, está querendo saber por que eu não prendi o saci? Pois é, doutor, no carro não tínhamos o material necessário para fazer como “Tio” Barnabpe ensinou.
Faltou a peneira.
Inté outro dia, se Deus quiser!
José Lúcio Cavalcante de Albuquerque. Ex-editor dos jornais Tribuna, Alto Madeira, e com passagens em outras publicações como o Estadão do Norte, Lúcio Albuquerque, egresso da imprensa amazonense, tem projeção nacional, desde a década de 80, quando foi correspondente do Estadão de São Paulo.