E lá estava ele, a chamar-me, estirando o braço e dando-me a mão para que juntos, de calção de banho fôssemos ver a cheia na ponte do rio que naquela manhã chuvosa inudava parte da cidade, e eu medroso apertei-a como um porto seguro e criando coragem fui.
Depois suas mãos guiavam-me na já antiga máquina de datilografia, corrigia-me, mostrava-me os acentos, como marcar e separar parágrafos, por fim a colocar a fita bicolor vermelha e preta, coisa que não demorei a aprender.
Corria o tempo e nos quinze anos, seu aperto de mão a parabenizar-me, e um relógio que sonhava ganhar.
Suas mãos a conformar-me batendo nas costas de forma branda ensinando paciência quando eu muito precisava.
Suas mãos levantadas ao alto, agitadas a orgulhar-me, quando discursava nos palanques eleitorais, festivos ou para alguém homenagear.
Suas mãos generosas no que sempre precisei, a cuidar para que nada me faltasse.
Suas mãos agora necessitadas das minhas no seu já frágil e incerto andar.
Suas mãos meu Pai, inertes e frias deitadas a descansar para sempre, e só no meu coração sentia sem poder chorar, frias, sem movimento. Não as toquei, olhava doído na alma sua partida, e vezes sem conta naquela noite triste e mais longa até agora na minha vida, muito mais que seu rosto eu as fitei.
Mãos tão queridas, instrumentos abençoados do seu coração.
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.
Bérgson Frota, escritor, contista e cronista, é formado em Direito (UNIFOR), Filosofia-Licenciatura (UECE) e Especialista em Metodologia do Ensino Médio e Fundamental (UVA), tem colaborado com os jornais O Povo e Diário do Nordeste, desenvolvendo um trabalho por ele descrito de resgate da memória cultural e produzindo artigos de relevância atual.
