Desconfiança – Por Bérgson Frota / Fortaleza

Vejo olhos atentos pelo espelho transparente, concentrados num sinal.

Primeiro o silêncio, uma parada e a porta abre-se para depois fechar-se rapidamente.

Quero espaço, passo a procurar e finalmente encontro um a satisfazer-me.

O silêncio quebra-se quando sou interrogado :

— Para onde ? É a pergunta.

Fico quieto por segundos que parecem sacos de minutos, caixas de horas, mas finalmente cedo e respondo.

Ofendido pela pergunta facilmente a parecer intrusa, digo por ter que revelar, e pela desconfiança que penso ser mútua.

A janela troca de paisagens, e questiono-me pela obrigação que tive, tenho e sempre terei de responder àquela pergunta.

Gotas d’água descem ziguezagueando meu rosto enquanto lá fora a chuva cai fortemente.

Aos poucos vou secando pelo ar frio que invade o ambiente e sendo balançado por buracos e mais buracos a preencherem a trilha.

No painel em frente vejo então números que se sucedem sempre num crescente valor.

Grita-me novamente a idéia da resposta e da desconfiança, o silêncio é quebrado pelos sons de motores a funcionar e pingos de chuva, baixos mais audíveis.

Olho em volta, pela janela a paisagem me é familiar.

A porta abre-se novamente, e saio.

Tiro do bolso uma nota e pago. Rápido abro o guarda-chuva pronto a desconfiadamente atravessar uma rua que mais parece um rio.

Longe avisto o táxi que me trouxe a distanciar-se cuidadosamente.

Publicado no jornal O Povo, de Fortaleza em 04.07.2009

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha

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