Primeiro o silêncio, uma parada e a porta abre-se para depois fechar-se rapidamente.
Quero espaço, passo a procurar e finalmente encontro um a satisfazer-me.
O silêncio quebra-se quando sou interrogado :
— Para onde ? É a pergunta.
Fico quieto por segundos que parecem sacos de minutos, caixas de horas, mas finalmente cedo e respondo.
Ofendido pela pergunta facilmente a parecer intrusa, digo por ter que revelar, e pela desconfiança que penso ser mútua.
A janela troca de paisagens, e questiono-me pela obrigação que tive, tenho e sempre terei de responder àquela pergunta.
Gotas d’água descem ziguezagueando meu rosto enquanto lá fora a chuva cai fortemente.
Aos poucos vou secando pelo ar frio que invade o ambiente e sendo balançado por buracos e mais buracos a preencherem a trilha.
No painel em frente vejo então números que se sucedem sempre num crescente valor.
Grita-me novamente a idéia da resposta e da desconfiança, o silêncio é quebrado pelos sons de motores a funcionar e pingos de chuva, baixos mais audíveis.
Olho em volta, pela janela a paisagem me é familiar.
A porta abre-se novamente, e saio.
Tiro do bolso uma nota e pago. Rápido abro o guarda-chuva pronto a desconfiadamente atravessar uma rua que mais parece um rio.
Longe avisto o táxi que me trouxe a distanciar-se cuidadosamente.
Publicado no jornal O Povo, de Fortaleza em 04.07.2009
Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha