Em um jantar, vi-me a prestar e a receber homenagens. E, num grupo, eis que reevocamos caminhada conjunta desde os anos 60. Uma colega fala-nos de lutas e êxito, e do trágico sobre sua vida. No rosto, porém, o sorriso.
No peito, discreto broche: “PT”. E a confidência/convite: um vinho já guardado para a vitória de Lula. De nós, acercam-se Rosa (a da Fonseca) e Maria Luísa (a Fontenele). Sorrisos e abraços, em meio ao convite para os “60 anos da Maria”.
A esta, cobro -lhe livro, “ela narradora/personagem”, os fatos políticos sob o ângulo de seu sentimento e visão. E ela: “Já tenho o título”. Falo-lhes de outro, sonho meu, a reconstituir-nos a paisagem política desde os turvos anos 70 aos democráticos, a partir dos “aniversários” de nossos filhos, plagiando a amiga Violeta Arraes ao se referir à esquerda no exílio: “Conheço-lhes as grandezas e as vilezas todas”.
O grupo patrulha-me a opção por Serra e o PSDB. Falo-lhes desses como personagens da mesma história e das vezes muitas que, de uma banda do rio e de outra, fui operário na construção de pontes. Por fim, confesso o lado “adolescente contido no peito”, quem sabe expresso pelo tributo que pago a Leo (filho caçula, roqueiro no Rio) e a Rosa da Fonseca (na ponta esquerda).
Troféu “Coruja Apesc” às mãos, falo à televisão das marcas que deixei nos alunos e das que, da vida, trago no peito dilacerado. Todas a me ensinar a lição das dissonâncias a construir acordes.
Final da festa e os votos de que o vinho guardado seja erguido, em qualquer hipótese, a um Brasil de convivência sem ódio e plural.
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.
Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).