Os morros daquela cidade, amarronzados pelo muito tempo de sol, ostentavam sua seca e imóvel vegetação.
Pássaros voavam em grupos para direções incertas.
De repente um forte relâmpago que tornou o dia mais iluminado, logo em seguida um trovão fazia tremer toda a cidade, feito uma explosão vinda de alguma região celestial.
Começava uma ventania forte, que varria com força folhas e areia nas ruas ainda calçamentadas.
Longe da época das parabólicas, a cidade parecia ter em cada casa uma longa haste. Eram as antenas de TV, que por terem um cabo muito comprido começavam a dançar feito um bambuzal de ferro, não resistindo a força dos ventos e da chuva que já caía em grossos pingos.
A terra do rio seco, porosa e ainda quente, pois o sol partira há pouco, recebia e emanava um mormaço cheiro de coisa aquecida, que aos poucos cedia e logo tímidas as primeiras e rasas cacimbas formavam-se.
Era preciso esperar um pouco.
Quando a chuva já caía a cântaros na cidade, sua primeira parte atingia as cabeceiras do rio, na serra próxima.
Então grossas e rápidas ondas de água começavam a descer pelo rio outrora seco, vindas de longe, trazendo águas barrentas que com velocidade pareciam querer ocupar com pressa seus antigos espaços.
A chuva caía forte na cidade, agora já escurecida. O vento, os relâmpagos e os trovões acompanhavam-na.
O rio recebia a sua primeira cheia.
Era o inverno que chegava.
E todo este espetáculo regido por sábias mãos trazia para o povo do sertão uma tão grande alegria que mais parecia cair do céu neste dia, todas as lágrimas de sofrimento longamente represadas no peito da brava gente sertaneja.
Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha
