Com seu olhar bem triste, mas cheio de carinho e muita coragem ela me disse:
– Se cuide, estude e se não der certo, você volta, vem estudar em Fortaleza, aqui é mais perto de tudo…..
Foram mais ou menos essas as palavras daquela mulher que no ano de 1972 com 42 anos de vida, já na 19.ª gestação, precisamente no dia 17 de abril, por volta das 20:00hs nasceu junto comigo. Sim, nasceu junto comigo! Expressão utilizada pela dificuldade de “comunhão” entre maternidade e vida….
Ela já não tinha forças, o médico que veio fazer o parto na fazenda Ilha, município de Nova Russas/CE, pois é não nasci no Mane Vaca! Rs… mas, papai colocou no meu registro que sim, coisas de papai, como o Neto no final do meu nome, cultura brasileira utilizada para valorizar a família, em toda sua plenitude….
O doutor deixou a todos preocupados, quando chamou minha irmã mais velha para ajudá-lo no parto foi bastante direto:
– Um dos dois talvez não sobreviva.
Lágrimas….
Sobrevivemos os dois! Prevalecidos de uma força sobrenatural e como um “ bezerro desmamado” branco que nem leite e parecendo um bebê de dois meses eu cheguei naquela noite com a força dela e pelas mãos de minha irmã mais velha, minha segunda mãe, como milagre não saberia descrever, mas o dom da vida.
Quando parti e resolvi viver aqui na Cidade Maravilhosa, o Rio que tanto amo, o que mais me incomodava era à distância de mamãe. Mas, uma coisa ela sempre foi clara em suas atitudes, da forma dela, “ que filho se cria para o mundo” .
Mamãe é uma fortaleza, é sábia em suas colocações e é por demais segura. Segura porque ela veio de uma família humilde e sofreu na pele o preconceito da rejeição, segura porque ela sabe exatamente o que passou para ganhar todos os bens matérias que adquiriu com papai, hoje queria ter um pouco da segurança econômica de mamãe, só um pouquinho, mas sempre relutei e achei essa qualidade dela um defeito… Não sei explicar, mas acreidito que seus valores são outros.
Minha rainha hoje vive sozinha em seu “castelo”, na casa em que vivi parte de minha infância e adolescência, fases inesquecíveis…
Quando ela atende ao telefone, nunca me identifico, quando ela com sua voz já cansada diz:
– Alô
Falo aqui do outro lado, tão distante, mas com ela tão próxima em minhas lembranças, só sinto o pulsar acelerado do coração.
– Mãe…
Ela me da à certeza que está do outro lado e muito “VIVA”, comigo também no coração e nas suas lembranças:
– Oi meu filho! Paulinho ?
Ah! Mãe seja eterna!! Para eu sempre poder pelo menos ouvir tua voz…já que sua eternidade é uma realidade para mim.
Em minha recente visita a Ipueiras/CE, fui de surpresa… passei o natal com ela, fomos à missa na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, foi tudo muito mágico e vivo.
Mas, o mais mágico de tudo foi quando na minha despedida, não me contive e comecei a chorar…
Ela me olhou com os olhos cheio de lágrimas, mas não chorou! E me disse:
– Eu nem tenho mais lágrimas, não chore meu filho!
Olhei nitidamente para ela e falei
– Mãe, eu choro de saudades , de viver longe da senhora… mas EU SOU FELIZ lá!
– Seja FELIZ meu filho, VOCÊ É FELIZ, eu sei disso…
Com certeza MÃEZINHA, SOU FELIZ! Mas, sou acima de tudo FELIZ por ter uma MÃE como à senhora, exatamente como já descrevi em um texto quando você completou 72 anos de vida.
E você que lê este texto, lembre-se sempre, já dizia meu velho e saudoso pai:
“Pedaço bom é uma MÃE!”
Tenho dito.
Paulo Felipe é advogado trabalhista, pós-graduado em direito e processo do trabalho pela Escola Superior de Advocacia da OAB/RJ
