Num recente contato mediúnico de um falecido com seus parentes, ele fez relatos interessantes, como o seguinte: O Céu está informatizado. Curiosos com tamanha revelação, lhes perguntaram por quê. Afinal, estavam em plena mesa branca de uma sessão espírita.
E ele começou a relatar:
_ Pensam que ainda existe aquele o livro de ocorrências e de pecado que São Pedro, fedorento a mofo, ou aquele molho de chaves, fazendo zoada, prá cima e prá baixo? Existe mais não.
Em conversas de pé de ouvido com São Pedro de quem me tornei, muito amigo, ele me contou como eram as coisas por lá agora. Disse-me que logo que eu adoeci, ele começou a baixar o meu Download, Como não tinha completado o meu tempo aí na terra. Ele cancelou.
Depois de muito tempo, a doença voltou. Começou a baixar o meu download definitivo, agora prá valer. No dia que eu morri, foi o dia que apareceu no computador de São Pedro: Download efetuado com sucesso. E eu cheguei lá… meio atorduado. Dei conta de mim, numa linda entrada, com um painel bem grande piscando. Siga em frente. Juro: não entendi o que eu estava vendo. Cheguei numa sala bem grande e fui recepcionado por um senhor de idade. Sentado numa confortável cadeira rotativa em frente a um elegante birô estilizado. Suas vestes eram de um tecido muito fino, com nuances de ouro e prata. Prá minha surpresa, percebi um crachá pendurado no seu pescoço numa linda fita da cor de ouro. No crachá tinha: São Pedro e abaixo do nome, Setor Triagem.
Fiquei calmo. Ele vagarosamente apertou numa tecla de um painel que estava sobre seu birô e apareceu uma cadeira. Pediu, gentilmente, que eu me sentasse. Sentei-me. Olhou para mim e disse: dê-me seu cpf. Bati a mão num bolso e no outro. E me perguntei, eu já morri, prá que cpf. Nisso, São Pedro olhou-me com uma cara de quem não tinha tempo a perder e disse: Trouxe não? Se não tiver trazido bote aqui o polegar direito. Olhei, tinha um espaço que parecia um vidro em 3D. Era para colocar o polegar direito dos falecidos que não tinham cpf, dos que a Receita Federal tivesse bloqueado ou daqueles que não se lembrasse do número. Parece que o RG por lá não tem muito futuro, não. Falsificam muito. Ainda bem que eu sabia do meu decorado. Disse os números e ele lentamente, digitou. E num pequeno barulho que parecia um tilintar de chamada celular, de repente abriu em minha frente uma tela de LCD, 40 metros quadrados, com as seguintes inscrições. CPF identificado. E ainda continha o meu nome completo e o nome da minha mãe. Perguntei, e o do meu pai? Parece que nome de pai também não identifica muito por lá, não. Segundo ele, tem mãe que não sabe quem é pai do seu filho. Concordei. Abaixo tinha assim: Idade de consciência de pecado: 13 anos. Não entendi muito, mas, deixei para lá. Afinal, já havia feito várias perguntas e o homem não era muito de conversa. Mais abaixo tinha uma janelinha que dizia: Continuar. São Pedro teclou e logo apareceu, não mais uma, agora duas telas, nas mesmas proporções da anterior, com as seguintes inscrições: Boas Ações, em uma, e, Más Ações, na outra.
De repente comecei assistir o filme da minha vida. Foi aí que eu vim entender a idade de pecado. Era porque a partir dos treze anos, comecei a ter noção e consciência do que eu fazia. Passei, então, a ver de um lado as minhas más ações e no outro, as minhas boas ações. Olhei para São Pedro, cabisbaixo, só teclando no painel. E eu ali, assistindo, vendo a minha vida passar. Comecei a me tremer… Vixe… E agora… Que vai ser de mim. Deixei rolar… Não tinha mais o que fazer. Já tava morto mesmo. Assisti minha vida toda. Tudo o que fiz de bom e de ruim enquanto permaneci da terra. Vi todos os meus downloads, e o dia quando download foi completado, ou seja, o dia da minha morte.
Repentinamente, São Pedro colocou uns fones de ouvido e começou a falar num minúsculo microfone que mal dava para ser notado entre suas barbas brancas. Parecia conversar com alguém. Dizia no microfone: essas duas boas ações cobrem essa má ação. Essa cobre aquela. Esse pecado não tem jeito, é mortal. E eu, só pensando, meu Deus. Eita, tô lascado. De repente, São Pedro disse para a pessoa com quem ele estava falando: Análise concluída. Virou-se para mim e como um bom atendente de call center, disse-me: Vou lhe explicar todas as fases pelas quais você passou: Um momento por favor…Ficou teclando no painel. Demorou. Favor aguardar mais um momento, disse-me de novo. Nisso, uma musiquinha ambiental tocava com a intenção de passar tranqüilidade. Pronto, disse São Pedro. Arregalei os olhos. Ele vagarosamente começou a me explicar.
_Vou puxar o seu relatório. Apertou uma tecla e surgiu uma folha de papel contínua. Antes de me entregar, ele me revelou algo interessante. Resolvemos acabar com os livros e as escritas, porque muitos falecidos já chegavam aqui debaixo da asa de um advogado. Esses que morrem e ficam na frente do céu para ver se ganham alguma boa ação defendendo os que morrem e não tem consciência da desencarnação. Querendo questionar a lisura das minhas escritas. Então informatizamos tudo. Criamos e museu do céu. Mandei todas as chaves para lá e microfilmamos os livros todos. Montamos um grande programa de software. Fiquei impressionado. Nisso, abriu-se uma tela na mesa dele e, passou a me explicar. Os castigos aqui agora são em etapas. Eu disse:
_ mais como? Ele respondeu: Se você tiver sido ruim, vai para o Inferno. Lá é muito quente. Já tem muita gente. De vez enquanto, se escuta uma voz rouca e assombrosa, dizendo: Vire a bunda para a passagem. Todos viram. Passa um cão com um tridente vermelho em brasa de fogo, espetando um a um. Só se escuta os gritos de dor e uma gemedeira infernal. É cada “ai” que dói na alma. Eu disse: Vixe. Valei-me Santo Antonio. Se você tiver sido daqueles um pouco mais ruim, você vai para o Meio dos Infernos. Lá é caldeira pegando fogo, todo mundo nu. Só com um tapa sexo. Todos pintados de preto. De hora em hora, passa uma grande quantidade de cão. Uns com panela cheia de óleo quente, outros, com chicote de fogo. Batendo em todo mundo. E tem um cão que vem no meio, xingando as mães de quem está lá. Agora, se você tiver sido ruim demais, você vai para o Quinto dos Infernos. Eu disse: eita, São Pedro, lá deve ser de lascar. São Pedro respondeu: Lá é assim: Prá começar, não tem nenhum cão macho. Eu disse: tem o quê?
São Pedro respondeu: Só uma multidão de cão fêmeas. Todas pintadas de vermelho abrasante, com seios fartos jorrando fogo pelos bicos. Os olhos são duas tochas vermelhas e da boca, cada cuspida quando bate no chão, vira labareda de fogo. Eu, disse: se eu for prá lá, tô lascado. Lá não tem dia e nem noite. Uma grande quantidade de enxofre líquido e fervendo é derramado em cima das pessoas e uma cão fogosa, balançando os seios fartos na cara de cada um. Não se anime, não. Só que jorrando, ao invés de leite, labaredas de fogo. Eu disse: Ave Maria. Agora, seu caso não é de inferno, não. Você vai para o Purgatório. Irá encontrar seus velhos amigos da terra. Se repetir os mesmos erros cometidos, sai de lá para uma permanência no meio dos infernos, e depois, no quinto dos infernos: Cuidado: lá tem forró e carnaval. A galera tá toda lá. E eu fui para o purgatório e estou lá até hoje, não agüento escutar um forró e nem um carnaval que caio dentro.
Professor Antonio Alves Neto é sub-secretário de Educação do município de Ipueiras