“Neste País”, no entanto, ela se ostenta “coisa suja”, ao toma-lá-dá-cá. Nessa linha, os dicionários registram-nos, a título de figuradas, acepções como “astúcia, ardil, artifício, esperteza” (Aurélio). E até os que, em nossa política, voltam os olhos para a utopia de um longo amanhecer, “para além do capital”, convertem-na na hipérbole do “fora a política”…
Na Web, tento, coordenar discussões sobre nossa vida política, em tom maior. Obstáculos múltiplos. Desde a vacuidade dos bordões e das palavras-de-ordem de nossas facções, até a postura crescente dos muitos que se esquivam num “estou noutra”, da indiferença e da abulia.
Nisso, me chega do economista Cláudio Ferreira Lima, o artigo “Os indiferentes”, de Gramsci (1917) com o incentivo em tom de apresentação e socorro: “Para você, que sempre tem um lado, mas sabe respeitar os outros lados – até mesmo o dos indiferentes – e conviver bem com todos eles.”
Gramsci, em “Os indiferentes”, diz odiar a estes, e que “viver significa tomar partido”. Indiferença, para ele, é “abulia, parasitismo, covardia, não é vida”. Daí, seu ódio a quem não toma partido.
E aí, ocorre-me o Poema das Sete Faces, de Drummond, nosso poeta maior: “Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: ‘Vai, Carlos, ser gauche na vida”. E o olhar à esquerda (gauche) aponta-nos amanhãs. Um amanhã, no entanto, sob a pauta dos versos:
“Mundo, mundo, vasto mundo/ Se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução./ Mundo, mundo, vasto mundo,/ mais vasto é meu coração”.
Solução, o olhar mais alto que todos esperam de nós!
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.
Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).