Demócrito, o ícone – Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Prostrou-me, em súbita emoção, a trágica notícia. Ao lado de Demócrito, estivera eu, ao se lançar, entre líderes da terra, a obra A construção do Ceará – Temas da história econômica, de Cláudio Ferreira Lima, ali propondo o resgate da sintaxe perdida em nossa política, no alternar-se das solidárias cheias e das solitárias secas de nossos rios.

A custo, recobro o lado construtivo da emoção. É do “escrever é espantar-se”, extraio do barro do chão cotidiano, a “psicanálise e metafísica do mundo” a nos lastrear o projeto, sadios cúmplices os dois, desde os anos 80, quando, esgotada a União pelo Ceará, Celso Furtado reunia-nos dos então jovens empresários do CIC às mais avançadas correntes de esquerda: “o crescimento econômico a se metamorfosear em sustentável desenvolvimento”.

Pontos e contrapontos a compor acorde. Universidades a transpor muros, nas praças, campos e ruas. Literatura, arte, cinema, em simpósios e festivais aqui (nacionais e internacionais). Programas de responsabilidade social e de educação a distância. Com assento na Fiec, vistas “indústrias sem chaminés” nossas instituições de ensino superior.

Histórica parceria. É o cotidiano da vida na pauta de projeto plural, sob o diapasão do “quebras comigo a flecha da paz?”, entre Iracema e o guerreiro branco, a ter por símbolo de agora a sinfonia regida pelo maestro Koellreutter, na reinauguração do Teatro José de Alencar, onde ruídos da obra concertavam-se com violinos e vozes, no desenho do solidário e plural.

Uma saudade! Mas, ícone maior a decantar, de Demócrito Rocha, o poema Rio Jaguaribe. E a desaguar, na solidária água grande e no Longo amanhecer de Celso Furtado. Dele, diria o poeta Manuel Bandeira – no alto, São Pedro, bonachão, a convidá-lo: “Entra, Demócrito, você aqui não precisa pedir licença”!

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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