Como chefe de equipe, fiz então uma longa explanação sobre o nascimento e perseguição do povo hebreu, citando nomes de destaque nas ciências, política e literatura, e como um lapso, inconsciente, devo relatar só depois me dado conta, omiti a figura de Cristo, ao mesmo tempo em que falei do grande legislador Moisés.
O fato é que notei certa mudança no tratamento a mim reservado a partir de então pela mestra. Antes atenciosa passou a ser alguém distante a meus questionamentos, coisa que pouco me fazia entender o porquê da atitude.
Passaram-se várias semanas e um dia, ainda no pátio, antes de entrarmos em sala de aula, acerquei-me dela e fiz-lhe uma pergunta. Ela disparou quase me fuzilando com os olhos.
-Você é judeu ?
Fiquei sem ter chão para pisar.
-Não, sou católico, sou de uma família católica praticante.
Ela me olhou como se tivesse tirado uma tonelada de cima de si, e notei seu olhar mudado em minha direção.
-Então por que defende tanto os judeus?
Aquilo era demais, estava lá, latente o preconceito.
Perdi-me, falei que explanei meu ponto de vista e o da equipe, assim como defenderia se fosse a exploração do povo negro ou indígena.
Depois daquela pequena conversa tudo voltou ao “normal”, para ela, quanto a mim, enchi-me de pena ao ver numa docente de universidade, a estreiteza do sentimento humano tão arraigado numa criatura.
Na UECE o curso de filosofia prosseguiu.
E muito tempo depois de formar-me, lembrei deste triste fato, que relato não para divulgar o papel de “vítima inocente” o qual passei, mas como uma denúncia ao mais nocivo preconceito que nos prende e rebaixa sempre que nos quedamos em estreitas definições de respeito ao ser humano. *PC*
Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha – Fortaleza.