Tô vendo tudo – Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Repisei artigos, feitos bordões, em prol dos sofridos docentes. Mas desses, só: “tô vendo tudo (…), mas fico calado, faz de conta que estou mudo”; “apreço ao diretor”; “tempos de murici: cada um cuide de si”.

Nisso, a Anpae, em seus 25 anos, aqui sedia encontro nacional em busca de “pedagogia da convivência”, entre os agentes sociais de nossa educação: famílias, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, manifestações culturais (LDB). E elege-nos amigos – ícones em abraço na cadeia histórica em busca de horizonte mais largo em tal convivência, dando voz, por nós, mais franca e jovial (77 anos), a Adísia Sá.

Artigo de Walter Garcia, “Enfim, temos Fundeb”, daria o tom de tal busca. Nem tanto a “euforia governamental e de alguns educadores ao feito maior destes 20 últimos anos”, nem o desânimo pela “situação extremamente desconfortável”: o País “abaixo do 60º lugar”, em qualidade. O artigo, pelo apelo ao táctil das cifras e a contenção de grotescos just in times, mostra-nos um alcançável amanhã, na contra-mão dos ora fabulados à sombra da(o)s mangabeiras, para um futuro “quando todos estivermos mortos” (Keynes).

Ao abrir o encontro, Maria Luíza Leite Barbosa envolve-nos nessa “pedagogia da convivência”, ao repensar escolas e necessidades sociais de agora. Escolas que, por si sós, não fecham prisões, já que hoje abrigam gangues (nas periferias) e tribos (entre as elites) até.

Na saída, sondam-me sobre o affaire “ronda de quarteirão e uso dos símbolos” (farda e veículos). Falo do poder do simbólico para o imaginário do povo. Sim, dar um banho estético, em nossas indignas e feias escolas. Salários dignos a retirar, desse imaginário, o velho fusca com o “hei de vencer, mesmo professor”, no pára-choque. E esperar que se irrigue de crédito a oca retórica dos governantes.

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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