Cidade Iluminada – Por Bérgson Frota / Fortaleza

A noite descia em Fortaleza, a cidade iluminava-se com árvores a piscar e enormes edifícios a ostentarem belos e ricos enfeites natalinos.

A luta cheia naquele começo de noite já se mostrava, e o corre-corre de pessoas apressadas e carros a buzinarem riscando pistas levou-me a um pensamento único e reverente. Era Natal.

Longe daquele consumismo em que fomos já há muito tempo tragados nesta época, a noção cristã de amor ao próximo foi me tomando como uma avassaladora corrente de sentimentos.

Cada pessoa que por mim passava, tomava seu rumo como um autônomo seguindo apressadamente carregando suas histórias e seus dramas.

Sim, era Natal, e era a noite de Natal mais bela que eu já tinha visto.

Surgiu um sentimento de comunhão em meu peito. A vontade de expressar o inexprimível, a vontade de desejar a cada um que por mim rapidamente cruzava, um Feliz Natal!

Mas o tempo corria. E elas pareciam ainda mais apressadas.

Novamente fui levado a observar o ambiente.

Os edifícios pareciam cachoeiras de luzes a brilhar, nas árvores as luzes multicoloridas piscavam, músicas natalinas saíam de dentro de lojas e o céu se para cima olhássemos estava cheio de estrelas que também piscavam.

De volta pensei naqueles que muito necessitavam, que naquela noite talvez nada ou pouco tivessem para comemorar. Quantos naquela noite em todo mundo não pedia um só instante de paz, e tive pena de nós homens, que cumulados de tantas riquezas somos prisioneiros de tantas algemas.

Lembrei com fé da figura de Cristo, tal pensamento me trouxe paz e embora estranhamente uma compreensão de que mais do que nunca diante de tanta dor e desassossego ele estava conosco.

Desci rapidamente a calçada e cruzei uma pista em direção à casa.

No céu, naquela noite, como um presente de Deus a todos os homens, a lua estava cheia, iluminando ricos e pobres, iluminando toda a humanidade. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha – Fortaleza.

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