Julho transcorria com seus dias claros de temperatura amena, num sertão ainda verde pela fartura das águas abençoadas que caíram sem modéstia nesse ano de 2006.
As noites frias e estreladas exibindo uma lua cheia, de graça incomparável, que, sem sombra de dúvidas, faz jus ao nosso tão cantado “Luar do Sertão”, foi o cenário perfeito onde tive a felicidade de vivenciar, agora na fase adulta, o que tanto me encantou na meninice. E isso, no sitio Pai Mané, no município de Ipueiras: a farinhada. Ah! a farinhada!…
O ritual, o mesmo de antigamente. Durante o dia a algazarra de meninos descascando macaxeira, mulheres fazendo o mesmo serviço e entoando velhas cantigas, homens limpando o forno, trazendo mandioca numa carroça, todo esse movimento e animação antecediam o momento mágico que estava por vir. A grande noite.
E a noite, nesse dia, não se fez de rogada. Vestiu-se de beleza impar como a presentear-me. A negritude que forrava o céu aos poucos ia sendo salpicada de estrelas e, em breve tempo, o céu era um tapete mágico, reluzente, prateado à espera da rainha da noite, que não tardou a aparecer. Linda, majestosa soberana surgiu deslumbrante por detrás da serra grande, dando um ar de conto de fadas àquela noite sublime, na casa de farinha.
Enfim a lua e a tão esperada noite. As mulheres banhadas e cheirosas, apenas serviam café entre beijus e tapiocas, enquanto dos homens, eram as tarefas mais pesadas, como preparar a massa e mexer a farinha no forno. O cheirinho de farinha torrada invadia o ar. A cada nova fornada, multiplicava-se a animação. Entre gracejos e piadas, transcorria a farra da farinha.
Vivo na Cidade Maravilhosa, onde as luzes coloridas e a magnífica geografia fazem do Rio o mais belo cartão postal. Porém, tenho orgulho em dizer que minha alma sertaneja se encanta com a beleza e a magia de luas e lamparinas.*PC*
Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará
