Os três maiores símbolos de Ipueiras, sem desmerecer os demais valores, para mim, com certeza, são, pela ordem, o Cristo, o Jatobá e a Estação de Trem. E você, meu caro Kleber, dele tratou com maestria, nas suas duas últimas crônicas.
No “Vocabulário do Rio Jatobá”, nos fez um minudente relato de seu fantástico banho de rio, acompanhando Seu Neném, seu pai; o Zaca, (irmão do Fernando, filho de seu Gustavo, que morava próximo ao Cristo, irmão de Maria Helena); e o Assis, irmão do Sebastião, meu amigo, filho de Seu Zé Fernandes, do Sítio Lagoa, na Serra. Este, bom cavaleiro e bom de copo (nos dias de feira), dono do melhor cavalo marchador (nos anos 50) do município, que, nos sábados, levava seu proprietário, numa marcha só, de volta ao lar, sem precisar de guia – conta a lenda.
Cada palavra sua me fez voltar no tempo. Curimatãs, piaus, traíras, cangatis, carás, cabeças de prego eram os peixes da época. A importação econômica e cultural fê-los ser substituídos pelos tucunarés, carás-tilápias, pecadas, tambaquis de hoje. Aqueles, no entanto, resistem tal qual o sertanejo.
Bom relembrar os enxuís, com seu saboroso mel, prêmio precedido de certeiras ferroadas, minoradas pelo fumego que espantava os rebeldes marimbondos, utilizando esterco seco de gado (que também servia, à noite, para espantar as muriçocas). Lembrei-me das apostas, para quem atravessasse o rio primeiro; das cacimbas de areia, da colheita de pedras arredondadas, para munição da bala & shy;deira, que se prestaria para abater lagartixas, calangos e passarinhos, um tempo em que não se tinha noção de preservação ecológica. Os saltos dos galhos das oiticicas, nosso trampolim matuto. Bons tempos, enfim.
O trem (ah! o trem!) é, talvez, o símbolo que mais me encanta na minha Ipueiras de antigamente. Tenho sempre vontade de escrever sobre ele, mas a preguiça e o medo de não fazê-lo direito me desvanecem. Foi bom não fazê-lo. Pude desfrutar, com você, da viagem inaugural de ida e volta a Fortaleza, comendo poeira, fumaça e as iguarias da viagem (tapioca, quebra-queixo, colchão-de-noiva, peixe frito) com guaraná Wolga, do Ipu e guaraná Sport, de Sobral, para, alfim, ser recebido, de braços abertos, pelo nosso Cristo. *PC*
Texto publicado originalmente no blog GRUPO IPUEIRAS.
