Do Departamento de Trânsito do Ceará, recebo comunicação sobre a necessidade de renovar minha Carteira Nacional de Habilitação de motorista. Submeto-me de pronto às necessárias atualizações tocantes à saude e visão. Mas a intuição me leva a esquivar-me de um solitário exame e à procura de visão solidária, matriculando-me no Curso de Direção Defensiva e Primeiros Socorros, optando pelo da Cooperativa de Educação de Trânsito, em três produtivas tardes de 15 horas-aula. Fim da primeira tarde. De táxi, volto para casa. Com o motorista, comento as infrações ao nosso redor e falo do curso. E ele, irônico: “Jeito de tomar dinheiro da gente”. Descrevo o clima de “Lei do Gerson” e de “levar vantagem em tudo”, ao nosso redor. Topics, sem avisos, a se abaterem sobre nós. Pedestres fora de faixa, bicicletas e motos em inesperado jogar-se contra nós. E o comentário: aqui é necessário um “sinal”, como sinônimo de um “semáforo”. Falo de imaginários outros – Salvador e Brasília – onde os pedestres são respeitados, ao contrário daqui, até nos shoppings, onde carros se jogam contra os pedestres. No curso, “direção defensiva” abre espaços para nova lógica, direito de ir-e-vir crescente entre cidadãos – motoristas, pedestres, escola (da infantil à superior) e, sobretudo, nos meios de comunicação) Aos do Curso, levo tais preocupações. Sobretudo, a necessiade de rompermos com o imaginário popular cearense, montado sobre a lógica da confusão entre “sinal” e “semáforo”, a nos tolher a liberdade e os direitos. Falar, sim, de multas, penalidades, tipologia das vias, de tempo de frenagem e dados técnicos outros. Mas, sobretudo, do fim último do trânsito, que está a serviço do cidadão e da liberdade. Tudo, numa cidade sob o desenho do “xadrez” e sua lógica, a nos congestionar o trânsito, o trabalho e a vida! *PC*
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.
Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
