Ipueiras dos Tupi Guaranis – Por Carlos Moreira / Ipueiras

O trabalho arqueológico tem as suas durezas, as suas asperezas, envolve muita atitude física. A arqueologia tem dado contribuição importante para o processo de reconhecimento da história do povo. É uma maneira de confirmar ou de contestar a versão oficial da História.

Estamos vivendo em um mundo globalizado e a cada dia o fluxo alucinante de informações (através dos meios de comunicação) deixa tudo mais confuso. Há um certo mal-estar relativo à identidade do povo, e à medida que esta vai sendo recuperada, aumenta também o contato com a maneira de viver das gerações anteriores, especialmente na região em que vivemos. Isso pode fortalecer muito o sentimento de origem.

Ipueiras começa a dar uma lição de reconhecimento da importância da identidade indígena, uma população que tinha modo de vida próprio e uma arte muito característica, além de uma maneira peculiar de se relacionar com o meio ambiente.

A arqueóloga, antropóloga e professora Marcelia Marques (foto acima), da Universidade Estadual do Ceará (UECE), esteve no município de Ipueiras, interior do Ceará, no último dia 07 de Abril. A vinda se deveu a um achado de cerâmicas, peças e vasilhas no distrito de Nova Fátima.

Em entrevista ao Primeira Coluna, a professora Marcelia falou da influência das culturas européia e africana e da população indígena. É o que se chama de miscigenação cultural, elemento básico da constituição do povo brasileiro. “Nós somos frutos de uma série de experiências culturais”, afirmou Marcelia. Ela aborda também os hábitos e gostos pelos produtos derivados da mandioca e o conhecimento das ervas – a fitoterapia é herança dos populações Tupi Guaranis.

Primeira Coluna: Na visita feita ao distrito de Nova Fátima foi detectado, através de vasilhas encontradas no subsolo, que índios Tupi Guaranis residiam na região. Houve nessa região um grande aldeamento Tupi?

Marcelia Marques: É bem possível. Pessoas que residem em Nova Fátima dão notícia de vasilhas encontradas quando estavam arando, roçando a terra pra poder cultivá-la. Geralmente são vasilhas que não estão tão bem preservadas, até pela fragilidade do material, por serem de argila, de barro, e quando ocorre o contato da enxada com essas peças há um atrito muito grande e geralmente se fragmentam, se quebram. Pra nós que estamos realizando estudos nesse sentido é possível remontá-las e reconstituir esses fragmentos a partir do resultado da peça inteira.

Primeira Coluna: Na localidade de Buriti, o descendente de índio “Senhor Braz Martins de Oliveira” (foto logo abaixo), 73 anos, relata que a sua tataravó foi pega a dente de cachorro – É um demonstrativo de que existiam índios selvagens?

Marcelia Marques: Acredito que antes de ser um demonstrativo da existência do que se considera índios selvagens, ali está sendo manifestado um choque de culturas diferentes, porque essas populações indígenas, pelo que se sabe, eram extremamente sensíveis. A maneira pela qual respeitavam os limites da natureza, a maneira como eram educados os seus filhos. Os relatos demonstram que os índios não agrediam seus filhos, ficavam simplesmente observando-os. Se nós pensarmos em selvageria, muitas vezes é uma herança de certos preconceitos pra lidar com pessoas que são diferentes de nós. Existe uma tendência na sociedade de um modo geral, em todas as culturas, se chama de etnocentrismo – uma determinada população considerar-se o centro das referências. Quando os índios se deparavam com populações que tinham hábitos diferentes, tinham uma outra relação, de certa forma sedentarização, fixando-se na terra. Pessoas que talvez fossem fáceis de ser contatadas, havia essa tentativa por vezes de pegar à força. A selvageria na grande maioria era dos brancos tentando aprisionar os índios. Os mesmos teriam muito a nos ensinar, pelo modo de se relacionar com os animais, a vegetação, as águas e entre eles.

Na população indígena não havia uma distinção do que era arte. Uma simples assadeira para preparar o beju era pintada . Existia arte no cotidiano.

Primeira Coluna: As peças encontradas em Nova Fátima têm um valor histórico e cultural… menos financeiro.

Marcelia Marques: É importante que tenhamos conhecimento que o valor é histórico e cultural. É um valor para compreendermos como foi todo esse processo de ocupação de gente que viveu aqui nessa região.

Primeira Coluna: Pinturas rupestres foram encontradas na localidade de Bacupari (foto logo abaixo), no “pé de serra”. Como identificá-las?

Marcelia Marques: Para se tornar mais popular, “pinturas rupestres” significa pinturas na pedra. São vestígios arqueológicos que de certa forma são frágeis também, pinturas feitas nesses talhados, serras, com um mineral chamado óxido de ferro. Essas pinturas estão sujeitas ao desgaste do tempo. É necessário termos cuidado com essas pinturas do passado do nosso país. Muitos de nós ainda são descendentes indígenas.

“Vai ser difícil um brasileiro que não tenha uma descendência Tupi Guarani”, conclui.

Da esquerda para a direita, subindo: Erivelton Oliveira (diretor de esporte – PMI), Carlos Moreira (editor do Primeira Coluna), Antonio Neto (diretor de cultura – PMI), professor Gutembergue (diretor da escola de Bacupari). No centro: Marcelia Marques (antropóloga da UECE). Abaixo, de mochila: José Welton (guia turístico). E à direita, com lanterna: Leandro (historiador da UECE). *PC*

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