O épico de uma época: Quase! – Por Marcondes Rosa Sousa

Quase é advérbio por trás do qual se escondem o rascunho, o inconcluso e o inatingido. Quase é o título de obra de 518 páginas do escritor-jornalista Frota Neto, lançada, dias atrás, em calorosa noite no Náutico, em mais de 4 horas de autógrafos, abraços e reminiscências de todos os lados.

Autobiografia, crônica sentimental, história ou romance? Quase é quase cada um desses gêneros. É autobiografia onde o autor se transpõe do texto para o entretexto. Romance em primeira pessoa, em que o narrador é câmera subjetiva a extrair, de ambiências, fatos e personagens, o caleidoscópio de nosso imaginário. Filme onde incontáveis figurantes são feitos protagonistas, num romper da dualidade bandidos/mocinhos. Nele, Frota Neto é repórter a registrar fatos de sua convivência, entre os anos 50 e 70.

Na seleção do não-perecível, assistiu-lhe o feeling do cronista da história. E, ao mapear ambientes, atitudes e almas – captados por câmera em close up – fez-se cineasta sensível na seqüência dos instantâneos em contextos significativos mais amplos e verticais: do carneiro do Miraugusto e os doidos (?) de Ipueiras às cenas nas prisões, no jornalismo e na história do Ceará, do Brasil e do Mundo. O menino que, nas Ipueiras, brincava de repórter, afeito à história e às estórias, revela-se de corpo inteiro, na linguagem solta e aprazível, impregnada do jeito de nossa gente.

Quase, assim, não é o nostálgico retorno a um congelado passado. É, ao invés, o ontem revisitado, sob o agudo olhar do agora, onde atores e cenas, em flashback, se re-simbolizam em seu papel. Quase são dramas com marcas, sem traumas porém. Não o tributo cobrado por um retornado, após seu êxito lá fora. Frota é um dos que se foram mas que, aqui, deixou-se ficar. Que viu o mundo Ipueiras e, de sua aldeia, fez uma sinédoque do mundo. Isso, porque continuou sempre o Antônio do seu Idálio, a nos tratar pelo apelido de infância. Seu Idálio, o pai, que, no cotidiano de sua farmácia, é personagem-tema a nos sugerir um romanço…

Para Frota Neto, Quase pode ser o desculpar-se pelo inconcluso. No caso, porém, é advérbio que se tornou substantivo próprio e maior. E, na leitura de muitos dos personagens-leitores, o épico de uma época. Por que não? A arte, afinal, faz-se da sugestão e do inconcluso: atingindo sua plenitude, no quase! *PC*

Publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza, por ocasião do lançamento do livro de Frota Neto.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará.

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