Crescendo entre os morros que cercavam aquele vasto vale cortado por um tímido rio.
De longe ouvia-se o farfalhar dos leques quase imperiais da “árvore da vida”.
Depois chegaram os homens, mulheres e animais.
E o sítio que era um terreno de áreas empoçadas e farto barro-de-louça virou fazenda, até uma capela ganhou.
E as carnaubeiras?
Diminuíram, mas ainda eram em grande número.
Tinham serventia em quase tudo na região. Parecia que delas nada se perdia.
Assim era nos primeiros anos Ipueiras, uma fazenda que tornava-se com o tempo cada vez maior.
Logo, mais e mais moradores chegavam e não demorou para a antiga fazenda virar vila.
As carnaubeiras continuaram, embora em menor número, porém mais numerosas nos arredores.
Formavam um cinturão arbóreo em torno do povoado.
O carnaubal parecia ser o mais belo do mundo.
No fim da tarde, em cada carnaubeira pousava uma graúna, e quando a sombra da serra azul deitava na região seu manto, a grande orquestra se iniciava, vinda das copas soberbas e virentes uma maviosa canção, assim a “árvore da vida” aninhava na noite fria as aves canoras.
Quando a vila tornou cidade, a “cidade das carnaúbas”, começou a transformar-se. As parcas ruas ainda mantiveram como adorno algumas carnaúbas soltas no meio do tempo, até mesmo as que por necessidade pediam o corte foram mantidas.
Sentia-se no povo um instinto antigo para preservá-las.
Havia bairros em que os carnaubais virentes, com hastes ao céu erguidas, movendo sem rumo ao arrepio do vento, desafiavam o tempo com seu verde gaio, verão e inverno inalterados.
As esbeltas árvores de porte tão elegante quanto festivo formavam um bucólico panorama quando ao sabor do vento forte que dobrava o vale em direção à Ibiapaba azul ensaiavam uma dança bela, quase tocando uma na outra com suas copas altivas.
O progresso trouxe calçamentos, e na cidade só restaram as carnaubeiras que por sorte se situavam nas nascentes pracinhas, o resto era derrubado, e somente na lembrança dos mais velhos ficaram os vultos das árvores já ausentes.
Bem poucas carnaubeiras sobraram, como remanescentes de um passado longínquo. Lá longe, onde as luzes da cidade parecem estrelas, como uma tribo de território perdido, ainda restam muitas delas. E nas suas copas como no passado aninham-se lépidas graúnas.
O tempo passa e a “árvore da vida” resiste, como se lembrando o passado distante, longe da cidade que outrora foi sua. Plantadas no sertão adusto, desafiando o sol tórrido do verão, resistindo aguerridamente na terra mãe que lhe gerou a semente.
O texto acima é uma miscelânea em homenagem a quatro obras de Jeremias Catunda, jornalista, poeta e contista ipueirense. Nele há trechos das poesias “A Carnaubeira” e “Sonho Verde-Escuro”, das crônicas “Em louvor à Minha Terra” e “Ipueiras antes, lagoas e carnaubal” (esta já aqui publicada).
(018)