Pensava em um símbolo que todos conhecessem e se identificassem. O rio, a ponte, a igreja, o arco e finalmente o Cristo. Foi como se uma luz me iluminasse. Resolvi que o carimbo teria a imagem do Redentor, mas qual ângulo? A questão tomava-me a mente. Mesmo porque se fazia necessário cumprir um prazo já determinado para a entrega do desenho. Creio que na época não tinha idéia da importância do que me estava sendo pedido. E sem pressão portanto, deixei a criatividade aflorar.
Lembro-me dos dias em que comecei a criar o desenho, das noites enluaradas, do céu claro de outono com as estrelas a moldarem um cenário quase místico por trás da imagem do Cristo visto de longe. Criei os traços daquela imagem que no alto mirava sempre ao anoitecer. Queria detalhar o rosto, mas resisti, seria como roubar do povo uma sigilosa homenagem. Decidi que o desenho não estamparia a face para que dessa forma representasse o rosto de todos os ipueirenses. Assim feito, entreguei o trabalho (exposto na imagem abaixo).


A noite daquele dia foi cheia de festejos, pairava no ar uma aura de confraternização que não se presenciava há muito na cidade, já tomada por antigos filhos que para a data vieram. Tudo se transformou numa grande festa que saudava os ausentes e celebrava os presentes.
Mas o tempo não parou, e logo chegamos aos 120 anos. Novamente me vi convidado, não para criar um desenho, seria um artigo, missão de que não me furtei.
Hoje ao concluí-lo sou reportado a uma época tão distante e tão presente. Agora um novo século, muitos dos que naquele dia estavam se foram, deixando de forma indelével sua marca, como se fazendo uma ponte entre a antiga e a moderna Ipueiras.
Despeço-me então como um escultor que entrega ao tempo sua obra. Deixo neste artigo uma homenagem a todos os ipueirenses. Aos que partiram e aos atuais, na certeza de que como uma tocha caminha de mão em mão para no fim vir a iluminar um grandioso altar. A história do povo cearense, com a força dos ipueirenses, lhes outorgará um lugar digno de honra e valor no panteão dos séculos vindouros. *PC*
Texto publicado no livro Prêmio Frota Neto de Literatura – Ano III – 2003
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