Uma amiga, notória militante da esquerda nacional, se ressente: “não somos um país sério, exceções óbvias a umas poucas instituições e pessoas”. Já habitantes de prosaicos chãos nossos lastimam a traição dos políticos aos “projetos e sonhos” pactuados em amplo contrato social, avacalhados agora sob o invólucro de “cuecas” e “caixas dois” pelos “udenistas de tamancos”. No Ceará, por outro lado, metáforas e adjetivos dão sinal do ”Projeto das Mudanças”, pacto firmado nos meados anos oitenta, ora a romper-se. Beatles de outrora, admitimos afinal: “o sonho acabou”. Em seu lugar, não teríamos construído sintaxe mais sólida e substantiva: os sujeitos como agentes de ações predicativas mais tangíveis, a desenhar “projetos e sonhos comuns” e a correr por estradas, rumo a porto real, dando significação a nosso fazer político. O risco é a política a rejuntar os cacos do velho e a perder-se, narcísea, na veneração de um esvaziado e inócuo poder…
Enquanto escrevo, é madrugada e a energia se esvai. Lá fora, policiais e eletricistas dão-me conta de que ladrões haviam roubado a fiação da rua. Na manhã seguinte, os jornais nos trazem o governo a lamentar-se, insatisfeito (ele próprio) com nossa insegurança…
De mim, insisto no quase chavão. São João escreveu o “Apocalipse” como signo de nova lógica, a do “caos aparente”, no início da era cristã. E esse é recado que nos dão natureza, vida e cultura enfim. A hora é, pois, de literalmente (re)vermos pactos, sonhos, utopias. Que o velho seja guardado nos arquivos de nossa história. O clima, assim, pode ser de esperança! *PC*
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.
Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
