Ouço professores de todos os níveis. E fico a pensar no status por eles perdido, ao longo dos anos, desde quando, à porta dos consultórios, os profissionais quando também professores, preferiam como tal identificar-se. Guardo o júbilo de colega meu ao relatar, quando na Alemanha, o tratamento respeitoso ao “Herr Professor”, que lhe davam os bancos. Na universidade, alcancei docentes no alto de suas cátedras. Tempos em que, no Ceará, os salários dos professores do velho Liceu equivaliam aos dos desembargadores.A esse tempo, ainda nos pautávamos na crença do mandamento divino mais forte: o “comerás o pão com o suor do teu rosto”. A escola era o lócus apropriado para a formação do cidadão, do profissional e da pessoa. E corolário disso, a constatação de que “ela é o que são seus professores”. Com o tempo, as cátedras foram se esfacelando em prosaicas “cadeiras” até se confundirem com as “carteiras” onde se sentam os alunos. Dedicado, por anos, à administração pública, decidi, para espanto de muitos, voltar à sala de aula. Movia-me a compulsiva “vocação de resina”, na ânsia de rejuntar “cabeças, mãos e corações” (isto é, os intelectuais, os gestores e o tato político). Amigos reagiram, mas, obstinado, lá fui eu. Vi autismos a separar governo, sociedade e universidade. Na pública, queixas ante um retórico “público e gratuito”, sem livros, laboratórios e condições. Tudo, pago por baixo dos panos. “Dia virá” – caricaturava-nos uma jovem docente – “em que teremos, até nós, que pagar para entrar aqui”.Na particular, mais grave, as ondas de inadimplência a forjar crescentes burlas à CLT: “Aqui, quem manda é o cliente. Os professores são meros empregados. Cumpre-lhes entregar o produto (o diploma) a quem por ele pagou”. Mesmo que “sem fundo”? Rever tal quadro faz-se urgente! *PC*
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.
Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Pessoas que já visitaram essa página: 32
