O Poeta e os Passarinhos – Por Bérgson Frota / Fortaleza

Havia nas redondezas de uma pequena cidade cercada de morros e cortada por um fino rio, um bosque verde por causa de um grande açude que existia no centro dele.Lá, garotos brincavam no banho refrescante e além de colher frutas da época caçavam também diversos passarinhos, muitos deles raros, que só ali eram encontrados.Jeremias era um dos garotos.Levantava-se cedo nos fins de semana e levava várias arapucas e um saco de melão São Caetano, fruta que muito atraía as aves.Queria muito um canarinho belga, já havia capturado pardais, sabiás e gola-estrelas, só faltava para sua coleção esta rara ave.Quando num domingo, já ao meio-dia, percebeu ter capturado o pássaro tão desejado, voltou para casa sem se conter de tanta alegria.Na casa tinha muitas gaiolas, todas cheias, e uma de cor prateada já há muito reservada ao pássaro que trazia.Mas as coisas não saíram como o esperado.Depois de engaiolado, o pássaro emudeceu, e para espanto de Jeremias fez calar os outros pássaros como ele também aprisionados.Foi-se uma semana e mais duas seguintes de um silêncio total.Então, Jeremias tomou a decisão de soltar o canarinho, mas aberta a portinhola a ave recusava a sair. Tinha água e comida e ali ficava pulando de um poleiro ao outro silenciosa.Jeremias resolveu desmontar a gaiola, então o pássaro finalmente voou, mas o silêncio permaneceu com os pássaros que ficaram. Aos poucos o garoto foi perdendo o gosto daquela “coleção” e um dia soltou todas as aves que voaram até sumir no azul do céu.Numa manhã, tempos depois, as antes engaioladas aves começaram a voltar ao seu quintal, e ciscando na terra ou voando entre as árvores, cantavam os mais lindos sons que Jeremias jamais havia ouvido.O canto era tão bonito e encantador que Jeremias não demorou a criar poesias, e isso se repetiu durante anos e anos até que ele já homem feito veio a ser reconhecido na sua terra como um grande poeta, que teve como fonte de inspiração o mavioso canto dos pássaros que quando criança por compaixão tinha dado a liberdade. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha – Fortaleza.

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