O drama da Égua da Secretária – Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro

Sou nordestina. Cearense, lá das Ipueiras. Moro no Rio de Janeiro há bastante tempo. Confesso que nunca chegou a me incomodar a diferença de cultura. Mas, de uns tempos para cá, o bicho pegou feio.

Imaginem! Tinha eu um telefone bem simples, que funcionava às mil maravilhas. Nunca me deu aporrinhações, a não ser uns poucos trotes, que respondi à altura.

Inventei de comprar um telefone moderno, com secretária, relógio, redial e tudo a que tinha direito. Tempos modernos… Render-me à tecnologia era o mínimo que eu poderia fazer.

Foi aí que começou o desatino. Empolgada, gravei logo duas mensagens, crente de que tava abafando. Quando me cansava de uma, substituía pela outra. Não sei qual das duas escutou mais desaforo.

Escute só o que minha própria família, sangue do meu sangue, teve coragem de fazer comigo.

Ligou-me mamãe… Não estando eu em casa, a secretária deu o ar da graça. O negócio foi feio. Não se entenderam mesmo, foi um tal de bater telefone, que só vendo.

Minha mãe, ofendidíssima, me liga em outro momento e, num misto de raiva e queixa, solta os bichos:

-Ooora Dalinha, eu liguei pra ti e uma cunhã sem-vergonha falou, falou, e depois bateu o telefone em minha cara. Onde já se viu?! E o pior é que eu acho que conheço aquela voz.

-Mãaaae, é a secretária!

Passou. Não demorou muito, nova encrenca, e tome desaforo. Meu irmão Tony… Achando-me depois de muitas tentativas.

-Dalinha, já liguei umas duzentas mil vezes e nunca te encontro. Eu tô pra mandar aquela tua secretária tomar no …

-Ô Tony! Pelo amor de Deus, tenha dó!

Novas explicações! Diante de tanta incompreensão, resolvi dar férias a tal secretária, até que as coisas se acomodassem e a novidade fosse digerida.

Fim do descanso, retorno com a secretária.

Em pensamento, digo: Agora vai. Vai sim, no mesmo rumo… Dessa vez, papai… Queixa grande… E bote carão!

-Que diacho é isso, Dalinha? Ligo, ligo, ligo, toca, toca, toca e ninguém atende. Agora liguei e uma égua véia sem-vergonha me disse que tu não tava em casa. Onde é que nós estamos? Ainda por cima me deixa falando sozinho… Isso é um desrespeito.

-Ô papai, essa “égua véia” sou eu. Sou eu, pai!… Com Tony e papai me esmerando nas explicações, contornei a situação.E mamãe? Mulher sentida e de brios…

A história até hoje rende.

Ela diz que tem quase certeza que de que aquela voz era a minha, que nunca vai engolir essa desfeita e jura de pé junto, em tom de queixa, para os outros irmãos que lhe bati o telefone na cara. Durma, com um barulho desses!

Eu, pobre mortal, além de aturar os insultos da família, que mora no Nordeste, tenho que aturar também a gozação de filhos e marido carioca. Pense! *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

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