Oh, terra abençoada! Tudo que se planta dá, já dizia Pêro Vaz de Caminha. Mas será que ele um dia imaginaria que as plantações substituiriam a terra pela água? Acho difícil. No começo até eu relutei contra essa idéia, que me parecia no mínimo descabida. Quem me livrou do preconceito e me convenceu que era possível produzir um produto final de superior qualidade foi o Marquinho, o mais velho dos cinco filhos que tenho.
Aliás, esse é um menino de ouro. Tem amor à terra e ao trabalho! Sempre tem idéias novas. Lembra muito a mim quando jovem. Quem me dera que o João e o Pedro fossem assim. Esses só querem gastar o dinheiro que a hidroponia nos proporciona. Vivem lá na cidade grande. O mais próximo que eles chegam daqui é através do telefone.
Já a Marina, depois que chega da escola, sempre me ajuda a proteger e a limpar as estufas. É preciso que fiquem livres das variações do clima, dos insetos, animais e outros parasitas que normalmente tanto prejudicam as plantações feitas no solo.
A Eduarda se forma no fim do ano em veterinária não vai dormir antes de balancear os nutrientes conforme a necessidade do cultivo. Ela é a responsável por que as plantas recebam durante todo seu ciclo de crescimento as quantidades ideais de nutrientes.
Esse sistema de cultivo, dentro de estufas sem uso do solo, de certa forma, uniu mais a família. Antes as meninas alegavam não se integrarem mais ao trabalho na roça por não gostarem de pisar e de manejar a terra. Além disso, vira e mexe sempre havia reclamações de ter algum inseto preso à roupa ou ao cabelo. Ah, mulheres! Sempre vaidosas.
É impressionante, mas ficar aqui olhando o passado e contemplando o futuro me faz constatar que a letra do hino é verdadeira, “o nosso céu tem mais estrelas, nossos bosques têm mais flores”. Somos realmente gigantes pela própria natureza. Mas há quem não perceba. Eu, por exemplo! Não entrava na minha cabeça como os nutrientes que a planta precisa para desenvolvimento e produção pudessem ser fornecidos somente por água potável acrescida de nitrogênio, potássio, fósforo e magnésio em forma de sais.
Hoje em dia é difícil esconder o sorriso ao abrir as estufas e ver os cultivos de alface, melão, morango, feijão-vagem, arroz, tomate, pimentão, berinjela, agrião, brócolis, couve, repolho, salsa e pepino. Todos super saudáveis. Não há ataques de pragas e doenças, tão comuns há tempos atrás.
Não sei se ainda verei esse Cruzeiro do Sul por muito tempo, mas de uma coisa eu tenho certeza: o maior erro que alguém pode cometer é ter medo de plantar. E como ainda não consegui descobrir o que somos sem a natureza e o que nos restaria, continuo aqui plantando e escrevendo minhas memórias. *PC*
Beto Costa é jornalista