Senado, o espelho – Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Lápis e borracha à mão, vinha eu propondo limpar o País, na busca de novo “era uma vez”. Mas os últimos episódios no Senado abalaram-me o otimismo.

Na TV e na mídia, busco entender o surreal ali visto. As pistas, aos poucos, soldando-se.Artur Virgílio, de um lado, liberando o voto de companheiro alagoano, mas, de outro, lendo a reunião como “terapia de grupo”. O jornalista Noblat, pintando Renan, ao ameaçar os colegas, com o “eu sou vocês amanhã”. E isso me trouxe, de volta, à febre dos grupos terápicos nos anos 70, a nos mergulhar em infantis “fossas” até sua gradual limpeza em maduro mundo. O Senado viveria tal “fossa” por todos nós. E Cristovam Buarque, ao pedir o registro da reunião, talvez a visse espelho de toda a nação.

Os jornais falam de nossa aposta no oscilante jogo das efêmeras bolsas, no mercado e na vida social. Em lua de mel com o agora, tripudiamos sobre o passado com o “nunca neste País” e cegos quanto a sustentabilidades no amanhã. Nos jornais, o alerta: “Apesar de seu indiscutível propósito social, o Bolsa-Família não conseguiu atingir seu objetivo primordial: a redução da pobreza. Estudo elaborado por professores da pós-graduação em economia da Universidade Federal (Caen/UFC) aponta que o carro-chefe do governo Lula, assim como os demais programas de transferência de renda existentes no País, não têm efeitos significativos no combate à pobreza. Pior: poderiam, no futuro, criar um circulo vicioso”.

Não é só nossa Câmara Alta que está em jogo, num intentado golpe contra a bicameralidade do Congresso Nacional. Não só os políticos, mas toda a vida nacional, hoje à procura de novo amanhã, onde os sociais direitos precedam os políticos e a escola nos leve ao trabalho e à participação social. Pois, aos sãos, a esmola e a mera aposta só viciam o cidadão!

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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