Quando era março chegava o inverno.
O céu escurecia de repente. Trovões, relâmpagos e grossos pingos d`água começavam a cair.
Adultos e crianças saíam pelas ruas, avenidas e diante do grande patamar em frente à igreja matriz, festejando a chegada da estação.
Subia do chão nas primeiras levas da chuva, um cheiro mormaço de terra quente, ferida e surpreendida pelos frios e grossos pingos que sem parar caíam. Parecia que o céu arrependido chorava pela longa secura da terra.
E logo nós, meninos, corríamos em direção à ponte velha, para de lá vermos o Jatobá, que recebia das cabeceiras da serra, água e mais água, barrenta, borbulhante e barulhenta. Fazendo redemoinhos e se espalhando pelo terreno antes seco, mas seu. Serpenteando na terra areienta e porosa.
Era meio-dia e quando lá para as três da tarde a chuva passava, a cidade então se preparava para a fria noite, que adentrava a madrugada com o barulho incessante dos sapos despertados.
No segundo dia o rio ainda estava cheio, permanecendo assim enquanto chovesse. E acontecia que no final da tarde começava a revoada no céu, era o tempo das tanajuras.
Corríamos nós, crianças, levando na mão uma grande folha verde de castanhola e de forma quase mecânica, começávamos a capturar e seccionar ao meio as grandes formigas.
Naquela época havia bares que pagavam por uma substancial porção de “bundas” de tanajuras, e nós, espertos que éramos, ganhávamos com a venda. De trocado a trocado íamos juntando uma boa soma, que logo se esvaía em gibis, bilas e bombons.
Para nós, crianças de Ipueiras nos anos setenta, aquela era uma época feliz, pois não só tínhamos os banhos diários no rio, como a caça das tanajuras, que rápido passava, mas que nos lembrava um novo período a repetir-se no ano seguinte.
E assim em cada início de inverno, vinham os banhos de chuva, os banhos de rio e o tempo das tanajuras, até que de criança tornamo-nos adultos e as tanajuras foram esquecidas, ficando para nós a alegria maior do bom inverno, resumido na abençoada fartura por ele sempre trazida ao forte e bravo povo do sertão.
Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha – Fortaleza.
