Defeito era ser bom – Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Na rua onde moro, observo papos de pessoas saídas de velório na igreja do Menino Deus, no bairro Luciano Cavalcante, de jovem brutalmente ali assassinado. De manhã, o assassino esfaqueara a senhora, tentando arrancar-lhe a bolsa, afugentado por guardas da Câmara Municipal. À noite, na mesma rua, tentara do vizinho, estorquir dinheiro para drogas, tomara-lhe a moto, esfaqueando-lhe cabeça e costas, deixando-o a ali agonizar. Patrulha policial, ao passar, negara-se ao socorro: “Problema de vocês. Fomos escalados para outra ocorrência”. Na delegacia do bairro, policial se escusa: “Não vou sujar as botas, entrando no mangue, atrás de drogado!”

No papo, dizia-se do assassino: “Matava cachorro e gatos, guardando-lhes a carne na geladeira para comer”. E do pedreiro, pai da vítima, o lacônico depoimento: “Só tinha um defeito. Era bom. Por isso, morreu como morreu”. Nos papos, o desencanto com nossos valores: honestidade, trabalho, ética. E sentidos queixumes sobre alienação de nosso marketing, onde segurança e estética urbana pautam-se pelos figurinos da visão narcísea de nossos políticos.

Entre intelectuais, dou testemunho da alienação depressiva e crescente com o chegarmos ao fundo do poço, nessa questão. O fim dos tempos! Tento ver apocalipse à luz da bíblica acepção de revelação, aviso e renovação de ciclo. Mas alguns já vêem, a nos rondar, o Anticristo, com data marcada para o “juízo final”.

Da área política, ouço vozes em prol do resgate da ética. Animo-me. Daí, evocar aqui a queixa de que “a dor da gente não sai no jornal”. E isso com a de um pai: “Era bom e, por isso, morreu” Nela, o recado de nossos eleitores sobre a visão equivocada do marketing de nossos políticos: a do chão falso e manco a nos embasar o direito à vida. No País, no Ceará e nesta Fortaleza a iludir-se de … bela!

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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