Pelo vermelho dos olhos, notava-se que andava choramingando pelos cantos.
Não demorou muito tempo e a notícia se espalhou. Vovó Ana estava de mudança para a Capital. Ali no Arroz, seu pequeno lugarejo, ela vivia bem. Tinha uma casinha pequena, um bom quintal, onde criava suas galinhas.
A filha de vovó Ana, pré-supondo que ela não teria condições, pelo avançado da idade, de continuar vivendo sozinha no Interior, resolveu arrastá-la para a cidade grande. Lá, teria conforto, bons médicos, companhia da filha, do genro e dos netos.
Se não aceitou tudo de bom grado, vovó Ana também não se lastimou, enfrentou com dignidade a sua sina. Tudo já estava decidido, cabia a ela apenas vender seus poucos pertences e fazer a mudança de vez.
Só que, aquela doce vovozinha tinha uma grande paixão por suas galinhas. A família, composta por um galo e dez galinhas, nunca a deixou falando sozinha. O galo se chamava Trontim e as galinhas todas tinham um mesmo nome, Veaninha. Todos atendiam prontamente aos chamados da boa velhinha. Só comiam em bandejas. Durante o dia, milho, à tardinha, arroz.
Com os olhos mareados, presenciei a parte mais comovente deste episódio. A entrega das galinhas vendidas.
Vovó Ana, num fiapo de voz, chamava as aves que, uma a uma, vinham à sua mão, e em seguida eram entregues à compradora.
Ainda escuto ecos daquela voz meiga e carinhosa chamando suas aves:
-Vem, Trontim! Vem comer um “milhim”.
Saí triste daquela casa ao testemunhar o desencanto e a tristeza de Vovó Ana.
Não voltei mais lá… Mas soube notícias do choro daquela doce criaturinha, que estava prestes a deixar o lugar que por muito tempo foi seu ninho, sua vida e sua felicidade.
Vovó Ana é daquelas que falam com os bichos e também é entendida por eles.
Que tal, se nós, ditos racionais, dialogássemos mais com nossos queridos velhinhos e os entendêssemos melhor?
Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará
Texto publicado originalmente no caderno DN Infantil – Diário do Nordeste
