Infante em Ipueiras, tal qual o oscilar entre a grandiloqüência das cheias e a solidão das cacimbas no rio Jatobá, vi UDN e PSD em crônico litígio. Cena que me ficou: dois inimigos políticos, em luta na coxia em frente de onde morávamos, desarmados por meu pai, conciliador, que, por uma janela, atirou-me para dentro de casa… Nos anos 60, estudante universitário de esquerda, veria Virgílio postar-se ao lado de João Goulart e a costurar tendências em luta na “União pelo Ceará”, sob o pacto do Plameg (Plano de Metas Governamentais), a lhe pautar horizontes: integrando-o pela BR-116 ao País, industrializando-o a partir da energia de Paulo Afonso, gerando trabalho e renda, a educação a se democratizar…
Anos 80, fim de ciclo. E, sobre essa época, a confissão que nos fariam os do Movimento Pró-Mudanças contra os “coronéis”: “Quem mais nos deu apoio foi VT. Por ironia, um coronel!”
Novo ciclo, sem dúvida, agora. No País, cheias prenunciando grandezas. Mas nós, perdidos do horizonte de um novo amanhecer. Nossos políticos, em seus narcíseos arquipélagos, sob o falso deleite dos pés de murici, cada um a cuidar de si. E, infantes, todos nós a saborear o ilusório “sem porto” das bolsas… Nossa educação, entre as piores do mundo, morrendo na praia. Praia a não atingir, em sadio desenvolver-se, o cidadão (ser social), o profissional (o construtor pelo trabalho) e a pessoa (o ser transcendente).
Hora das cheias a sepultar solitárias cacimbas. E a nos enfrasar na esperança de janela em mim marcada desde a infância, rumo ao sustentável futuro!
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.
Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).