A Balada de uma Guerreira – Por Bérgson Frota / Fortaleza

Fotograma do filme O Cangaceiro de Lima Barreto, 1953

“Uma homenagem à gente humilde de Ipueiras”

Já se vão muitos anos que tal fato se deu. Foi no tempo do cangaço, tempo de luta e medo.

Num pálido amanhecer, correu por Sarieupi a alarmante notícia.

O bando de João Breguelo, cangaceiro temido, estava a trote rápido em direção à cidade. Seria saque na certa, tinha fama de carniceiro.

Desprotegido o povo, logo em pânico entrou.

A lua estava cheia naquele dia fatídico.

Os loucos corriam às praças pelo astro movidos.

Um chamado Abraão gritava a plenos pulmões a profecia final.

Outra cega e insana que atendia por Boré, gritava alto impropérios, não certos para mulher.

Havia também Carolina, mendiga de pernas finas que só fazia escutar.

Zacarias outro louco, dentro desta confusão perdia-se em gargalhar, enquanto o médico

Melquíades a todos com grande esforço procurava ajudar.

Vicente, um bom padeiro, que a Virgem devolveu-lhe o falar, balbuciava no Arco a graça de se salvar.

Antônio Simão matemático, homem bom calculador, fazia rabiscos num mapa, intentava descobrir, por qual entrada da vila o homem ia surgir.

O farmacêutico Idálio atendia sem parar na botica São José gente a se contar.

Era mulher pra parir com nervosismo aumentado, era homem que as calças não paravam de molhar.

Lá pras bandas da Estação, Lili fazia sua renda, mulher de fibra e coragem, cearense de prenda.

Quando soube da notícia nada se alarmou, deixou de lado os bilros e pra cidade rumou.

Viu de perto o medo, mas não se acovardou.

Reuniu o povo em torno, clamou uma reação.

Chamou a coragem dos homens, que a terra forte pariu.

Mas bastou ouvir um tiro, e a praça se esvaziou.

Ficando só o Telógo, que mudo não escutou.

Do tiro foi um instante, e o bando se fez entrar.

A cidade servilmente rendeu-se sem batalhar.

Lili encarou João Breguelo, e pôs-se diante do homem.

Foi amor de só olhar.

O cangaceiro estacou, o bando seguiu o gesto.

Desceu rápido a montaria, puxando pelo cabelo a mulher que lhe rendia.

Tentou-lhe roubar um beijo, ela rápido escapou, devolvendo em bofetada o ato de atrevimento.

Era morte na certa pensava quem assistiu.

Mas contava com a sorte, a brava Lili presentia.
O cangaceiro apaixonado, pela mulher se dobrou.

Da mesma forma atraída, Lili dele se encantou.

Depois de parlamentar, o cangaceiro aquietou-se.

Montou Lili no cavalo depois nele montou-se.

Saíram sem nada tocar, poupando o povo e lugar.

Mas o caso ficou registrado pra este contista narrar.

A história de uma rendeira que um cangaceiro dobrou, e com coragem e ternura, a sua terra salvou.

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha

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