Inquieto, acordo cedo. E, ao final da manhã, lá estou, no Colégio Christus, em minha secção eleitoral.Para surpresa minha, sozinho.Perante a urna, candidatos e números.Vereador, retrato de desconhecido…Da terceira tentativa, o educador escolhido, a sorrir. Para prefeito, três, dentre amigos, em aleatória escolha…
De volta a casa, refugio-me nos jornais. De colega, artigo me evoca o clássico “Triste Bahia”, para deter-se, num “quão dessemelhante” a hoje se aplicar à “loura desposada do sol”, de Paula Ney…Mais tarde, apurações em curso.Súbito, o telefone a tocar. Na linha, uma das “vendedoras de sonhos” a me dar conta, pelo País, de grande número de votos em branco e nulos, resposta ao “fora a política”…
Fujo para a Web.Nos grupos de discussão, clima de “fossa” de muitos, em um “cansei”. Votos de alguns em catadores de lixo, em nome da ética. Da escritora Nilze Costa e Silva, e-mail, a enxergar comum entre nós dois, de partidos diferentes, o ‘desligar televisão, rádio e o pegar de um livro qualquer’. No final, em tom de surpresa: “Será que Rosa da Fonseca, amiga de priscas eras, teria razão?”
Volto à TV. Noticiosos falam de mercados e bolsas de valores em queda. Fatigado de tudo, tento refugiar-me nos livros. Da estante, irônico, me acena provocativo, livro a mim recomendado por Rosa e Maria Luíza, “Para além do capital”, que, em suas 1102 páginas, desenha-nos novo mundo, a superar mercado e crise a nos baterem à porta.
Pela manhã, os vigilantes olhos cansados, sou despertado pela manchete, em primeira página, de O POVO: “Ex-porteiro da Câmara de Fortaleza é eleito vereador”.Fique-nos a reflexão!
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.
Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).