Durante certo tempo morou na pequena Ipueiras, seu Mundico, um senhor simpático, casado com dona Abigail, uma senhora gorda de sorriso largo.
Não sei de onde veio o simpático cidadão, mas sei que ele veio para ocupar uma vaga nos correios.
O que fez por um bom tempo.
Ipueiras era um típico interior sem grandes distrações que se pudesse desfrutar no dia-a-dia.
As conversas nas calçadas ainda predominavam.
E era até muito bonito ver as calçadas cheias.
Enquanto os adultos conversavam, a criançada corria alegre pelas calçadas.
Eram as ditas “tardes fagueiras que tanto me encantavam no interior.
Quando seu Mundico chegou a Ipueiras lá pelo final dos anos sessenta, suponho eu, uma novidade tomava conta da cidade.
A televisão! Não se falava em outra coisa.
Contava-se nos dedos a casa dos poucos privilegiados que possuía esse luxo, a novidade do momento! Com isso surgiu outra novidade: “A TELEVIZINHA.”
Ou seja, ver televisão na casa da vizinha.
Como poucos tinham acesso à televisão, criou-se o hábito de assistir televisão na casa dos vizinhos mais abastados, que compreensivamente viam suas salas lotarem como se fossem salas de cinema, com pessoas que queriam usufruir do inusitado
A reunião era sempre no final da tarde.
Adultos sentados em cadeiras e crianças sentadas no chão.
E todos de olhos arregalados e ouvidos bem abertos.
Muitas vezes, só víamos vultos e um chuvisco brilhoso, e todos ficavam felizes quando feito relâmpagos aparecia alguma imagem.
Pois bem, foi numa tarde dessas que seu Mundico e dona Abigail chegaram para a sessão da tarde na casa da Tia Odete.
Todos estavam sentados, compenetrados, assistindo a programação vespertina.
De repente seu Mundico tira a alpargata de couro, põe o dedo fura bolo na boca, e baixinho diz:__não se mexam!!!
E caminhando cuidadosamente, entre os espectadores vai até a parede e sapeca a alpargata em cima de uma lagartixa que se esfarela toda diante do riso da criançada, do olhar desconsolado da Tia Odete e da descoberta tardia do pobre Mundico que só veio saber, que o pequeno animal que ocupava inofensivamente a parede, nada mais era que um simples bibelô, uma peça de decoração que não resistindo às chineladas transformou-se em pequenos cacos esfarelando-se no chão.
Às vezes um espetáculo ao vivo e a cores tem muito mais graça do que o apresentado via televisão.
Este eu gravei na memória.
Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará.
