O Rio Jatobá – Por Kiderino Flaviano Teixeira

A névoa esvoaçante a serra inteira enluva …
Alta noite o trovão geme na serra inteira …
— “Serra de São Gonçalo”, o Santo da Palmeira …
E o Jatobá soluça aos rigores da chuva.

Turvo, escuro-vermelho, indiferente zarpa
Da minha Ibiapaba a rolar entre os montes …
Festeja o azul do céu refletindo horizontes,
E desce de roldão murmurando na escarpa.

Temeroso e violento, areias revolvendo,
A margem a solapar, estourando em remansos,
Retorce o oiticical, e escarva, e arranca os mansos
Morfumbais da beira os galhos retorcendo.

Lembrando-o assim, galã, alagando o sarçal,
Pomposo como um Rei nas terras de Ipueiras,
Revejo na memória, aos bandos, lavadeiras,
Roupas corando ao sol, dando à idéia um garçal.

Quantas vezes fiquei, naquelas tardes boas,
De estilingue nas mãos, encolhido, com frio,
Vendo em seu rebojar, convulsivo e sombrio,
Sumir o milharal maduro das crôas.

Tinha medo ao ouvir seus gemidos magoados,
— Eu, que do povo ouvira, em minha meninice,
Que os gemidos do rio (efeito da crendice)
Eram a voz dos que ali morreram afogados.

Que recebas meu beijo e outro igual me mandes,
Rio do meu temor quando eu era menino;
Só hoje é que sei que és tão pobre e pequenino,
— Miniatura infantil destes que vêm dos Andes !

Poesia do livro Mandacarus do poeta Kideniro Flaviano Teixeira, livro publicado em 1976 – Trabalho enviado por Bérgson Frota.

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