Cheio de fé e com um certo sincretismo religioso me mostra uma rosa vermelha (seria a de Grampola, ui!) velas que ao chegar em casa iria acender para São Jorge, pois afinal amanhã 23 de abril será o dia dele e para felicidade dos cariocas e moradores do Estado é feriado. Bruno vai embora rápido, toma uma cerveja ainda das que sobraram do meu aniversário, dá-me aquele abraço caloroso e me avisa que amanhã logo cedo estará na Igreja, próxima da minha residência.
Quinta-feira, 23 de abril de 2008, acordo com aquela lembrança de Bruno, da rosa, das velas, penso em ligar para ele, mas acho ainda cedo, é feriado ele deve dormir até mais tarde, não vai chegar tão cedo na igreja. O telefone toca, é Bruno me avisando que já está na igreja e me convida para ir ao seu encontro…….
Recordo-me que ano passado estive nos arredores da Igreja de São Jorge, e que era um evento alegre, uma mistura de samba e fé. Não pensei duas vezes, fui ao encontro de Bruno.
No caminho, já observo que duas cores predominam nas vestimentas do povo, o vermelho e o branco, parecia até um certo desfile daquelas cores, uma viva, cor de sangue, cor da vida eu diria, cor de luta, resistência e outra cor da paz… Ao chegar às proximidades da Igreja, lembro que Bruno me avisou que estava no “ pagode, quase em frente à igreja” .
De longe já fui avistado e todos já fazem a tão comum observação e pergunta:
– Quem é o gringo ?
E eu como sempre com a resposta já na ponta da língua:
-Não sou gringo, sou brasileiro, sou cearense lá da distante Ipueiras no meu Ceará.
Mas, não seria uma festa religiosa?
Olho para a Igreja, e vejo uma imensa fila para entrar. Bruno logo me avisa:
– A fila para entrar na Igreja está enorme, é melhor ficar por aqui no pagode, aqui é o “ bom” é o ‘ fervo” .
Logo, começo a observar as pessoas ou diria as figuras mais imagináveis possíveis que passam e outras que param.
Um ex-canditado a rei momo no carnaval carioca é só alegria e quando menos se espera ele dá um grito, usando uma expressão da umbanda e salda São Jorge ou Ogum. Fala para eu parar de tomar água de coco e beber uma boa cerveja, gentilmente aviso que não estou bebendo bebida alcoólica naquele dia.
Meio que assustado, eu diria, começo a observar toda aquela festa, uma mistura de fé, carnaval, raças, cores, uma verdadeira miscigenação religiosa.
De repente pelo meu olhar apaixonado pelo Rio de Janeiro, percebo que este é o povo e a cidade que tanto amo, que carinhosamente me acolheu há 20 anos de braços abertos assim como está à imagem do Cristo no alto do corcovado e hoje é uma das sete maravilhas do mundo.
Mas, nem só o povo do samba estava ali, recebo o abraço carinhoso do organizador do Miss Gay RJ , carinhosamente eu o chamo de “ papito” . Olha que pensei em chamar Dr. Charles, quem sabe São Jorge não dê uma forcinha no seu sonho de ser Miss Brasil.
Do meio do povo, uma figura impar, única e autentica, vem em minha direção cantando “ parabéns pra você “ pela passagem de meu aniversário dia 17, é ela, transformista da noite carioca, da velha guarda eu diria, exemplo de filho e neto, um ser humano maravilhoso, Kátia Jones.
A festa ta boa, Bruno é só alegria com a festa de São Jorge. De repente os pagodeiros começam a cantar uma canção que eu desconhecia, me disseram que é da macumba, se é da macumba eu nem sabia, mas que um grupo de pessoas que sabem na pele o que é preconceito e dificuldade de aceitação começou a entoar aquela musica como se fosse um hino, um bom samba ou um lamento festivo, daqueles rememorados nas senzalas…………..
Aviso que vou pegar uma água de coco, mas na realidade só estava saindo à francesa.
Vou me afastando de todos e daquele local de festa, continuando minhas observações e olhando com bastante respeito por todo aquele sincretismo religioso…….
Com todo respeito a São Sebastião, além de ser feriado no estado do Rio de Janeiro, acho que o padroeiro deveria ser São Jorge, assim como lá na minha distante Ipueiras no Ceará é Nossa Senhora da Conceição, com sua festa em 8 de dezembro, com aquele povo que também quando criança e adolescente eu via misturar tantos sentimentos e FÉ.
Nada mais justo Oxum lá e OGUM aqui.
Com uma certeza eu saio daquele local, que a cada dia a frase que já faz parte da minha vida é uma grande realidade:
“ Ninguém deve decidir como você vai agir, porque cada um deve marchar ao som do seu próprio tambor. ”
Aquele povo, que estava ali, não estava preocupado com a batida do tambor de ninguém, só estavam marchando ao som do seu próprio tambor.
Tenho dito.
Paulo Felipe é advogado trabalhista, pós-graduado em direito e processo do trabalho pela Escola Superior de Advocacia da OAB/RJ
