A banalização da violência – Por Lúcio Albuquerque / Rondônia

Primeiro, os nazistas vieram buscar os comunistas, mas, como eu não era comunista, eu me calei. Depois, vieram buscar os judeus, mas, como eu não era judeu, eu não protestei. Então, vieram buscar os sindicalistas, mas, como eu não era sindicalista, eu me calei. Então, eles vieram buscar os católicos e, como eu era protestante, eu me calei. Então, quando vieram me buscar… Já não restava ninguém para protestar. (Martin Niemoller, pastor luterano alemão que contestou Hitler e foi preso por ordem dele)

Ligue a TV na hora do almoço: programas locais e nacionais estão cheios de violência, crimes, sangue. Ligue a TV na hora do jantar. E, novamente, mais crimes, mais violência. O bandido atira na cabeça de uma balconista que nada fez de mais. Outro bandido executa friamente um cobrador de ônibus depois de se apoderar da féria. Tudo filmado. Aqui quatro bandidos matam uma mulher na frente de sua filha. São presos não por ação investrigativa, mas porque o carrod ela tinha rastreamento eletrônico.

Pela televisão ficamos sabendo que policiais estão empenhados em prender um homem que, deixando a passividade de lado, ao ver uma mulher sendo assaltada, atropela os assaltantes e eles morrem. Não sou favorável à violência em qualquer sentido. Mas, quantas pessoas concordaram com a ação do motorista e quantas acham que os policiais estão certos?

E nós, passivamente, assistindo a tudo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Crianças participando do almoço ou do jantar, e a televisão não apenas falando, mas também mostrando tudo. Na TV, a Record ensina, em pleno domingo a noite, como se estruturar para cavar um túnel e assaltar um banco. De seu lado, a Rede Globo, logo após mostrar cenas de execuções sumárias de vítimas de assaltos, larga a próxima matéria, todo mundo sorrindo.

No Congresso Nacional conseguem fazer o que nem os eugenistas conseguiram nos primeiros 40 anos do século passado: oficializar o racismo. Como? Aprovando lei que gera vagas exclusivas e marginaliza desse processo, discriminatório em todos os sentidos, pessoas de etnia branca, que, mesmo sendo, às vezes mais ainda, pobres, não terão o benefício da lei racista. Ao invés de investir forte para melhorar o nível da Educação, especialmente no Fundamental, o Governo Federal investe sustentando faculdades particulares, não priorizando as públicas e, ainda, cria dois tipos de estudantes de nível superior, aquele que tem uma boa base escolar e aquelemque, às vezes por culpa própria, tem base ruim, mas ascende, por uma legislação racista, a uma faculdade. Será que nesse novo meio, esse grupo vai também ter lei especial para obter diploma?

Se você passa em concurso público é-lhe exigida uma certidão de nada consta fornecida por cartório criminal, ainda que você vá ser coletor ecológico, a maneira simpática de chamar gari num concurso em Ji-Paraná. Mas você pode estar cheio de processo, por crimes que vão do atentado violento ao pudor ao envolvimento em crime contra o patrimônio público que pode ser diplomado para qualquer cargo eletivo no país. E, lógico, vai legislar sobre temas, inclusive, que a esses casos dizem respeito diretamente. Aí, quando questionadas, lideranças alegam que o jeito é mudar a Lei. Mas como, se a Lei é feita por eles lá?

Aí, nas entrevistas, tomamos conhecimento de frases do tipo Não posso ser colocado na vala comum, ferindo-se às críticas que foram feitas aos que fazem a Lei. E nós chegamos a acreditar que estão falando sério.

Quantas vezes você ouviu dizer que uma dessas comissões de Justiça e Paz ou de Direitos Humanos já foi visitar uma família vítima de violência, ou uma vítima de violência?

E nós continuamos passivamente fazendo de conta que está tudo bem. Apenas esperando uma nova violência que logo gera matérias repetidas não sei quantas vezes e anúncios oficiais de que a coisa vai mudar, mas não muda. Aliás, muda, sim, para muito pior.

Inté outro dia, se Deus quiser

José Lúcio Cavalcante de Albuquerque. Ex-editor dos jornais Tribuna, Alto Madeira, e com passagens em outras publicações como o Estadão do Norte, Lúcio Albuquerque, egresso da imprensa amazonense, tem projeção nacional, desde a década de 80, quando foi correspondente do Estadão de São Paulo.

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