O Couro na Janela – Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro

Esse é um “causo-piada” que por mais de uma vez, ouvi nos alpendres e calçadas das Ipueiras. Quando o povo ainda tinha o habito de se reunir em volta das grandes bacias de alumínio ou cestos de cipó debulhando milho e feijão.

Contam que um sujeito do interior, casado, tinha como ofício, vender e comprar couro de animais.E por conta da profissão estava sempre a viajar.

A mulher que gostava de pular a cerca, ou costurar pra fora, como se costuma dizer no interior, arrumou um amante. E, toda vez que o marido viajava, ela pendurava um couro na janela para avisar o sujeito que o marido tinha viajado e o espaço estava livre para ele.

Certo dia o marido viajou, porém o tempo ruim, o trouxe de volta antes do combinado. Muita chuva, muita lama seguir viagem era impossível. Chegando em casa, jantou e foram dormir. Já era tarde da noite, quando o marido ouviu umas pancadas na porta.

Ele muito medroso perguntava: –Mulher que “diacho” é isso!? E a mulher sabendo dos medos do marido, respondeu:- — só pode ser alma, marido, coisa do outro mundo, assombração!

—- E agora?

—-Pode deixar que vou até a porta, faço uma oração especial e ela sobe para o céu ou seu lugar de direito.

E o marido:- — Só se for você mesmo, por que eu não tenho coragem, morro de medo de assombração.

Assim a mulher foi até a porta, e começou sua oração especial para espantar visagem:

“ As almas que andam penando,
vão para o reino da glória,
meu marido está em casa,
me lembrei do couro agora.”.

Acabando a oração, voltou tranqüilamente a dormir ao lado do marido medroso, que estava embrulhado da cabeça aos pés.

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

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