A carta que me mandastes – Por Bérgson Frota / Fortaleza

Lembro hoje, ao mexer em coisas passadas da carta que tu mandou-me. Encontrei-a entre livros, fotos e recortes de jornais.

Quanto tempo.Naquela época não tínhamos internet e a frase … estou te enviando nestas mal traçadas linhas … era-nos comum e corriqueira.

O papel deitado na mesa, a caneta e a mente cheia de novidades. Ligadas num só fim, escrever, contar, narrar um fato e matar saudades.

Lembra quando me mandaste a primeira carta Dalinha ?Talvez não, conhecendo eu tão bem tua memória. Querias de forma ansiosa mostrar-me tuas poesias. E quantas e tão belas já eram.

Esqueci de dizer-te que irias longe, falta minha, mas espero teres concretizado.

Sabe, nossa correspondência deixou-me saudades. Mas veio a internet, e que maldade, transformou o papel na fria tela que da carta ganhou somente na velocidade.

Dália, e aqueles poemas, os simples mas ricos de rima e emoção ? Tuas longas quadras que a ambos nos faziam rir pela peculiaridade e o teor brejeiro ?

Penso que as cartas embora amareladas eram mais ricas, só o fato da surpresa que trazia a cada lado virado e de quantas páginas.

Encontrei a carta que me mandastes ontem, mas levou-me à tempos pretéritos. Li e reli, dei boas risadas dos assuntos puxados e repuxados escritos para aproveitar mais ainda as brancas linhas que se ofereciam feito horizontes riscados num mundo de papel.

Dália, tu que amavas tanto tua terra ainda a quer como antes ? E as carnaubeiras que pareciam tanto te tocar ?

Na carta que me mandastes falava-me do amor ao cordel, da tua alma nordestina, fostes em frente no teu sonho ?

Queria muito lembrar o que te respondi.

Somos presos a segundos, minutos, horas, mal acordamos e não tardamos a dormir. As estações da lua rápidas se sucedem e o tempo passa.

Como gostaria de saber se tudo passou como querias.

Tenho em mãos a carta que mandastes, cheia de sonhos a enriquecer o amarelado papel.

Hoje já não digo o mesmo do e-mail, basta a frieza do imprimir ou o deletar.

Espero que tenhas ainda minha resposta, cá fico, e entre as folhas de um estimado livro guardo e escondo simultaneamente a carta que me mandastes.

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota, escritor, contista e cronista, é formado em Direito (UNIFOR), Filosofia-Licenciatura (UECE) e Especialista em Metodologia do Ensino Médio e Fundamental (UVA), tem colaborado com os jornais O Povo e Diário do Nordeste, desenvolvendo um trabalho por ele descrito de resgate da memória cultural e produzindo artigos de relevância atual.

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