A oralidade era a viva-cor, o mastro
maior onde Aderaldo Ferreira de Araújo (1878-1967) depositava seu espírito criativo.
Posto que, nos meandros erráticos de sua trajetória pessoal, a voz era
instrumento de sobrevivência, artística e humana. Tornou-o imortal na seara de
contar o mundo, cantar a vida.
maior onde Aderaldo Ferreira de Araújo (1878-1967) depositava seu espírito criativo.
Posto que, nos meandros erráticos de sua trajetória pessoal, a voz era
instrumento de sobrevivência, artística e humana. Tornou-o imortal na seara de
contar o mundo, cantar a vida.
Não era mecanismo único, no entanto.
O cavaquinho que ganhou da mãe, ainda jovem, era amigo-irmão inseparável.
Ganhou porque mereceu e era preciso: tinha talento nato em entoar cânticos, o
que, por um tempo, garantiu o sustento da família. Fez-lhe, inclusive, a
posteriori – com instrumentos como violão, violino e rabeca – ser diferente:
passou a ganhar ares maiores, de gente grande, ave de alto voo.
O cavaquinho que ganhou da mãe, ainda jovem, era amigo-irmão inseparável.
Ganhou porque mereceu e era preciso: tinha talento nato em entoar cânticos, o
que, por um tempo, garantiu o sustento da família. Fez-lhe, inclusive, a
posteriori – com instrumentos como violão, violino e rabeca – ser diferente:
passou a ganhar ares maiores, de gente grande, ave de alto voo.
É uma história conhecida essa do
cearense natural do Crato Cego Aderaldo – alcunha do poeta, cantor e improvisador,
tanto no Estado quanto no restante do País, devido ao fato de ter perdido a
visão quinze dias após a morte do pai. Esse duro golpe, porém, não o impediu de
manter a coragem e a força ao longo da vida – uma lição de resiliência.
cearense natural do Crato Cego Aderaldo – alcunha do poeta, cantor e improvisador,
tanto no Estado quanto no restante do País, devido ao fato de ter perdido a
visão quinze dias após a morte do pai. Esse duro golpe, porém, não o impediu de
manter a coragem e a força ao longo da vida – uma lição de resiliência.
No último dia 29 completaram-se 50
anos de sua partida. A impressão é de que o tempo passou devagar, sedimentou
vagarosa e profundamente uma obra bonita e, ao mesmo tempo, dolorosa de se
ouvir. E catapultou Cego Aderaldo àquele olimpiano espaço destinados aos que
souberam, com a simplicidade típica dos verdadeiramente grandes, ser pilar para
o desenvolvimento da cultura popular cearense.
anos de sua partida. A impressão é de que o tempo passou devagar, sedimentou
vagarosa e profundamente uma obra bonita e, ao mesmo tempo, dolorosa de se
ouvir. E catapultou Cego Aderaldo àquele olimpiano espaço destinados aos que
souberam, com a simplicidade típica dos verdadeiramente grandes, ser pilar para
o desenvolvimento da cultura popular cearense.
Itinerância
Em entrevista por telefone, sob tom
de reverência, o cineasta cearense Rosemberg Cariry – diretor do documentário
“Cego Aderaldo: o cantador e o mito”, lançado em 2012 em festivais de
cinema do Brasil e cotado para exibição nacional neste ano – rememora feitos do
poeta, ajudando na consolidação da dimensão real que o homem representou para
seu tempo.
de reverência, o cineasta cearense Rosemberg Cariry – diretor do documentário
“Cego Aderaldo: o cantador e o mito”, lançado em 2012 em festivais de
cinema do Brasil e cotado para exibição nacional neste ano – rememora feitos do
poeta, ajudando na consolidação da dimensão real que o homem representou para
seu tempo.
“Cego Aderaldo tornou-se um
mito, um arquétipo do artista depositório da herança de um cancioneiro. Passou
a ser reconhecido até internacionalmente por isso. Coloco-o no mesmo patamar de
Padre Cícero e Lampião. Essa trindade demarca o grande valor da cultura
tradicional de nossa história”, explica o realizador.
mito, um arquétipo do artista depositório da herança de um cancioneiro. Passou
a ser reconhecido até internacionalmente por isso. Coloco-o no mesmo patamar de
Padre Cícero e Lampião. Essa trindade demarca o grande valor da cultura
tradicional de nossa história”, explica o realizador.
Dentre os momentos que Rosemberg
destaca estão a visita do poeta ao Rio de Janeiro em 1949, acompanhado do
escritor e jornalista Rogaciano Leite (1920-1969) – “foi um alarde, saiu
em todos os jornais da época”, diz -; a viagem de Cego à Amazônia em busca
do único irmão que considerava vivo, o que o fez conhecer o Acre e países como
Peru e Bolívia; e as aventuranças do homem pelo sertão, levando novidades como
o cinema, a partir da década de 1930, e notícias de variados lugares.
destaca estão a visita do poeta ao Rio de Janeiro em 1949, acompanhado do
escritor e jornalista Rogaciano Leite (1920-1969) – “foi um alarde, saiu
em todos os jornais da época”, diz -; a viagem de Cego à Amazônia em busca
do único irmão que considerava vivo, o que o fez conhecer o Acre e países como
Peru e Bolívia; e as aventuranças do homem pelo sertão, levando novidades como
o cinema, a partir da década de 1930, e notícias de variados lugares.
“Podemos dizer que ele fez esse
interessante contato do sertão com o litoral, contribuindo para levar o
progresso ao primeiro”, sublinha o realizador. “Por sinal, em se
tratando de cinema, durante as exibições ele cantava a narrativa dos filmes,
que eram mudos, e aquilo despertava grande admiração por onde passava”.
interessante contato do sertão com o litoral, contribuindo para levar o
progresso ao primeiro”, sublinha o realizador. “Por sinal, em se
tratando de cinema, durante as exibições ele cantava a narrativa dos filmes,
que eram mudos, e aquilo despertava grande admiração por onde passava”.
De alma para alma
Outro ponto relevante evocado pelo
cineasta em seu comentário diz respeito a um dos fatos mais conhecidos da vida
de Cego: sua trupe, composta por 24 filhos de criação. Com ela, o artista rodou
uma centena de lugares e fez apresentações que, certamente, ficaram marcadas na
memória de quem pôde conferi-las.
cineasta em seu comentário diz respeito a um dos fatos mais conhecidos da vida
de Cego: sua trupe, composta por 24 filhos de criação. Com ela, o artista rodou
uma centena de lugares e fez apresentações que, certamente, ficaram marcadas na
memória de quem pôde conferi-las.
“Tudo isso faz com que ele
represente um lugar de pensar o Brasil. É uma figura muito interessante que,
infelizmente, o Ceará esqueceu e eu não entendo o porquê”, lamenta
Rosemberg. “Um homem de imensa grandeza que, inclusive, tirou o baião da
viola, ao contrário dos que pensam que foi Luiz Gonzaga (1912- 1989). O próprio
Luiz, certa vez, chegou a dizer numa apresentação: ‘O meu baião nasceu da viola
desse homem'”.
represente um lugar de pensar o Brasil. É uma figura muito interessante que,
infelizmente, o Ceará esqueceu e eu não entendo o porquê”, lamenta
Rosemberg. “Um homem de imensa grandeza que, inclusive, tirou o baião da
viola, ao contrário dos que pensam que foi Luiz Gonzaga (1912- 1989). O próprio
Luiz, certa vez, chegou a dizer numa apresentação: ‘O meu baião nasceu da viola
desse homem'”.
De fato, Cego Aderaldo era indivíduo
de causos. Um dos mais conhecidos aconteceu em 1914, quando travou a famosa
peleja com o cantador Zé Pretinho. Daí sua fama ter corrido por Quixadá – até
hoje há quem diga que Cego é, na verdade, quixadense.
de causos. Um dos mais conhecidos aconteceu em 1914, quando travou a famosa
peleja com o cantador Zé Pretinho. Daí sua fama ter corrido por Quixadá – até
hoje há quem diga que Cego é, na verdade, quixadense.
Engano sadio: afinal, “A peleja
de Cego Aderaldo com Zé Pretinho”, cordel concebido pelo poeta cearense Firmino
Teixeira do Amaral (1896- 1926), rememora o fato nas terras de lá e deixa tudo
com graça e irreverência.
de Cego Aderaldo com Zé Pretinho”, cordel concebido pelo poeta cearense Firmino
Teixeira do Amaral (1896- 1926), rememora o fato nas terras de lá e deixa tudo
com graça e irreverência.
Ampliando o olhar sobre o trabalho
irretocável de Cego, Rosemberg poetiza: “García Lorca (poeta e dramaturgo
espanhol falecido em 1936) dizia que existiam ‘artistas com duende’,
referindo-se à capacidade que algumas pessoas tinham de comunicar de alma para
alma. Cego Aderaldo era um desses”.
Fonte: Diário do Nordeste
irretocável de Cego, Rosemberg poetiza: “García Lorca (poeta e dramaturgo
espanhol falecido em 1936) dizia que existiam ‘artistas com duende’,
referindo-se à capacidade que algumas pessoas tinham de comunicar de alma para
alma. Cego Aderaldo era um desses”.
Fonte: Diário do Nordeste
Pessoas que já visitaram essa página: 32
